Quartel de
Tancos, Casal do pote.
Agora para
frequentar o Curso de Minas e Armadilhas. Ando mesmo com azar.
Como tinha o
curso Industrial podia ter ido para Mecânico mas não fui. Como
tinha o curso de Especialização de Desenhador Industrial podia ir para a
Engenharia quem sabe Topógrafo ou Desenhador, também não fui. Como trabalhava nos Telefones (APT, depois TLP, PT e não só),
podia ter ido para Transmissões mas não fui. Sem padrinhos, fui para Atirador e
agora o Curso de Minas e Armadilhas. Mas tudo bem, vamos a eles.
O director do
curso era o Capitão Grilo. As aulas iam decorrendo sem grandes percalços.
A margem de ERRO não
é larga. Só se erra duas vezes: a Primeira, e a Última. Todo o cuidado é
pouco. O risco é iminente.
É obrigatório
gritar bem alto, três vezes a palavra FOGO, sempre que se “explode” algo. A
obrigação dos outros é “esconder“ e aguardar.
Por vezes
ouvia-se, Fogo Fogo Fogo a todo o instante, em diversas direcções. Era o
pessoal treinando.
Uma mão aberta cheia
de pregos de aço, um petardo de trótil no meio, fechar a mão e fita isoladora à volta, mais um
detonador com um bocado de cordão, e era o suficiente para fazer uma granada
improvisada de efeitos devastadores. Os mais audazes, sabendo que o cordão lento
ardia à velocidade de um centímetro por segundo, podiam arriscar mais, cortando
menos.
Certo dia um
incauto foi espreitar o porquê de uma granada de fumos ter falhado depois de
activada. Resultado: Além de chamuscado ia ficando cego, pois não se toleram deslizes.
Para não
alongar e no que me diz respeito, recordo o dia em que fiz prova das minhas
capacidades de montagem e simulação.
Calhou-me uma Mina Portuguesa.
Era composta
por cerca de 400 a 500 bocados de verguinha de ferro da construção civil, com meio
a um centímetro de comprimento e um pequeno petardo de trotil “TNT”. Tudo
dentro de uma caixa de chapa, semelhante às usadas na costura pelas nossas
avós, envoltos em cera derretida para não “chocalhar”.

Era altura
das chuvas, o terreno estava ensopado. Sozinho, com o capacete de ferro “tipo
nazi” bem apertado no queixo conforme o exigido, analisei o terreno em volta,
meti a mina de lado e “mãos à obra”. Comecei a abrir o buraco.
Quando feito,
reparo que exagerei no tamanho. Aterrei um pouco, meti a Mina, e à sua volta
ataquei com as pedras “seixos” que tinha retirado. “Reconstruí” a paisagem por
cima e ao redor, estendi o arame de tropeçar, rosquei a espoleta, atei-lhe o
arame, com mil cuidados afastei-me, dando assim por terminada a montagem. Depois
falei bem alto! Trabalho concluído meu furriel.
Ok. Vamos lá
todos verificar a montagem do Pimenta.
Está frio, está morno, está quente.
Era assim que dávamos as indicações para controlar o avanço dos
camaradas. Por vezes mandava parar o pessoal; é que bastava pestanejar e parecia
que o maldito fio camuflado desaparecia na vegetação mas como estava a ser observado
não podia olhar directamente, senão a Mina era logo descoberta. Depois de disfarçadamente
confirmar, mandava avançar. Até que:
Atenção!
Agora Está a Ferver.
Formados em
“U”, o furriel disse: Muito bem, um belo serviço. Meus senhores agora afastar.
Como de costume, é o próprio instalador que puxa o arame, em vez de tropeçar.
Certíssimo.
Sou neste caso quem puxa o arame, quero pois “estourar” a
Minha Mina.
Éramos um
trio de amigos quase inseparáveis, os dois Simões e Eu.
Por agora Eu ficava ali,
para com calma, dar tempo aos que se aproximaram do lado direito do arame, se
esconderem do lado direito, e os do lado esquerdo, no lado esquerdo. Sempre foi
assim.
Inexplicavelmente,
um dos Simões corre, esquecendo-se que estava de um lado, e quis juntar-se ao Zé
Simões do outro.
CUIDADO! Alguém gritou.
Tentei lançar-me ao chão quando, de imediato a explosão. Seguiu-se o silêncio.
Senti um calor enorme no rosto, o meu capacete desapareceu, não sentia a cara,
pus a mão e ficou cheia de terra ensanguentada. Os colegas todos no chão.
Levanta-se um gritando estou cego estou cego, a seguir outro deitando sangue
pela garganta às golfadas, um terceiro de capacete na mão corria direito ao
quartel. De seguida apareceu de carro o capitão Grilo.
Andava perto e ouvindo o
grito seguido da explosão suspeitou que algo de grave tinha acontecido.
Entramos no
carro e lembro-me de não ter coragem de me olhar no espelho retrovisor. Não
devo ter a metade do lado direito, pensei. Via o sangue nos outros. O capitão
ralhava.
Ao fim de algumas tentativas e de um camarada me garantir que tudo
estava bem, olhei finalmente. Foi um alívio. Fiquei feliz. Apesar do sangue, vi
que tinha nariz, orelha e tudo, só estavam dormentes. Não ganhei para o susto.
A cerca de três metros de distância, se aqui estou descrevendo o sucedido,
penso que se deve talvez à fraca potência da Mina e às pedras que “ataquei” de
volta, que impediu a projecção dos “estilhaços”.
Levado para a Enfermaria do quartel dos
Paraquedistas de Tancos comecei aí a fazer a extracção de objectos estranhos à
caróla.
O problema
agora, vai ser chegar a casa, e “dar a volta” para enganar os meus Pais quando
virem o meu estado. Mais experiente, depois de me ouvir, o meu Pai chamou-me de
lado e diz-me: Agora confessa lá a verdade.
Mesmo assim
recebi o crachá de Minas e Armadilhas “Argúcia e Audácia”, e o diploma como a foto demonstra.
a moldura, não conta...
Para que tu meu amigo, não julgues que fiquei a
partir de agora com um parafuso a menos, te digo: Estás muito enganado. É
que acabei a guerra com dois parafusos a mais.