segunda-feira, 23 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
terça-feira, 17 de julho de 2012
Se bem me lembro...
Bairro do CAZENGA: Uma vez mais, a ronda.
Desta vez fomos alertados pelos residentes, que
diziam ter apanhado um “pilha galinhas”, e lá estava ele
choroso
de pé, em cima de um pequeno banco, atado a um mamoeiro.
Quando
o desamarrei, impressionou-me ver os vincos nos braços do meliante, fruto de um
demasiado aperto da corda que o amarrava.
Recordo o medo estampado no seu rosto,
não por ir preso mas porque “segundo dizia”, não tinha os braços. Por falta de
irrigação sanguínea estavam dormentes, pedi que os rodasse, o que fez de
imediato e com tanta força que parecia querer levantar voo.
Ao longe ouvia-se uma cantoria.
Mais tarde, quando o levávamos para a 7ª esquadra, verifiquei tratar-se de um funeral. Por respeito, todo o pessoal se calou, dando assim para ouvir
bem o que disse um "branco de 2ª" que já de grão na asa, falou:
isso mesmo nosso furriel, leve esses turras
para a prisão,
por causa desses merdas é que existe a guerra, etc. etc. Mas não ligamos.
No regresso, ainda lá estava.
Cada vez mais
bêbado, reconfortava agora a viúva, continuando a beber
"à saúde do morto".
Mandou mais umas
bocas, e de novo não liguei, mas o 1º cabo Mourão não: Identifique-se por favor.
Ó pá desculpa, não tenho comigo a
identificação.
Ai não tem? Então
acompanhe-nos.
Sou branco, sou camionista, sou português, …sou tudo.
Exacto, por isso mesmo, vai preso. E
foi.
..........+++..........
De novo, no Musseque do CAZENGA.
Logo de manhã à nossa
chegada, fomos recebidos quase de braços abertos por outro camionista. Conduzia um
camião carregado de café e segundo disse, desde a madrugada ansiava pela nossa presença.
Estava enrascado, porque enfiou o rodado da frente do camião numa vala e não conseguia sair.
Os moradores do
musseque, andavam a fazer uma casa nova.
Para ligar a água do fontanário
existente no outro lado da rua, abriram uma vala para
passar a mangueira, tendo o cuidado “para ninguém cair” de a
tapar, metendo
um ligeiro passadiço.
Era
uma vala tão pequena, que deu para enfiar o rodado da
frente do camião, ficando pendurado pelo radiador.
O meu Unimog era o famigerado “burro do mato”, equipado
com o famoso guincho, que quando necessário, nunca nos deixou ficar mal.
Era
preciso a sua ajuda uma vez mais.
Sem demoras conseguiu-se desenrascar o
senhor.
Agradecido puxou da única nota que tinha, “segundo
disse” uma
nota de 500 angulares, que quis dar. Recusei por diversas vezes, mas dada a
insistência, um soldado acabou por dizer:
Se o meu furriel não quer, queremos
nós.
O camionista ouvindo, deu-lhe a nota. Uns minutos depois após a sua ausência, combinamos gastar
tal quantia no marisco.
Fomos a um restaurante no Cacuáco. Era um local
à beira-mar, com uma esplanada e mesas redondas,
com telhado “também redondo” em capim.
Habituados aos
preços na metrópole,
esclarecemos de imediato o dono, que aquele dinheiro seria para o marisco, e as cervejas seriam à parte.
Éramos quatro de
cada lado atrás no banco, mais Eu e o condutor à frente, no total 10 militares.
Lagostas,
lavagantes, e “outros répteis”, foram até fartar. Continuavam a ser servidos
mais e mais pratos do material e avisamos o dono. Esclareceu que estava tudo controlado e que as cervejas estavam incluídas. Não pode ser. Achamos demasiado, e voltamos
a avisar.
O tempo foi passando, e empanturrados, resolvemos dar o fóra antes que
revisse as contas. Uns 100 metros percorridos, e ouvimos o senhor a chamar
bem alto. Meu furiel, Meu furiel.
Pronto, “estamos tramados” bem dizia-mos nós. Sem mais
dinheiro, agora vai ser o bom e bonito, vamos ter de deixar as G3 de penhora.
Comprometidos, voltamos e não queríamos acreditar. Queria dar-nos 200 de troco.
É chefe! Fique lá com isso.
Agradeceu, e sorridente
disse:
Voltem Sempre.
sábado, 26 de maio de 2012
Convívio com a presença do Furriel Carvalho
Aqui vai, mais um
pequeno e valioso filme.
Trata-se de mais um
convívio, este realizado pelo Rebelo, designado na altura por (Convívio dos
Furriéis), a data não sei precisar. Espero que, o organizador ou outro, ao ver estas imagens, me contacte para ficarmos com a certeza de quando foi.
Podemos reparar que já
foi há bastante tempo, pois além de estar presente o nosso saudoso Amigo Furriel
mecânico Carvalho “brejeiramente” conhecido pelo Barriga d’oleo, também era
(como vais ver) na altura em que os nossos filhos nos acompanhavam incondicionalmente
para todo o lado. Cabe agora a vez dos netos.
Ao ver estas imagens
começo a pensar com os meus botões: Será que estamos a ficar velhos? Talvez…
LUNGUEBUNGO:-(1ª parte)
= Lunguebungo =
Destacados da Companhia que estava aquartelada no Lucusse,
o meu pelotão foi para o Lunguebungo dar protecção à J.A.E.A. (Junta Autónoma
de Estradas de Angola),
que fazia na altura, uma pista de aviação para os Fuzileiros.
que fazia na altura, uma pista de aviação para os Fuzileiros.
Aqui tivemos uma vez mais, a confirmação de que
a guerra não era igual para todos.
Enquanto que os da Marinha viviam à grande e à francesa com todas as condições "que considero serem as ideais", nós do Exército, mais precisamente da Infantaria,
éramos uma miséria franciscana.
Enquanto que os da Marinha viviam à grande e à francesa com todas as condições "que considero serem as ideais", nós do Exército, mais precisamente da Infantaria,
éramos uma miséria franciscana.
Os Fuzos tinham instalações de pedra e cal, nós
as simples tendas de campanha.
Os Fuzos tinham geradores eléctricos, nós a luz das velas. Desde há muito, que tínhamos o stock das camisas (e não camisinhas) dos petromax, esgotado.
Os Fuzos tinham geradores eléctricos, nós a luz das velas. Desde há muito, que tínhamos o stock das camisas (e não camisinhas) dos petromax, esgotado.
Refiro entretanto, que durante a nossa estadia tivemos
uma sã convivência com estes fuzos, mesmo até uma relação de amizade.
Ao terceiro dia nesta povoação, tivemos a visita de um Fuzo, que montado no seu belo Unimog a gasolina, veio
transmitir um recado do comandante.
Os Senhores tem de comparecer hoje sem falta no
quartel dos fuzileiros, até à hora do jantar.
É pá!...Será que era nossa
obrigação, apresentarmo-nos aos Fuzos, quando rendemos a nossa tropa? Estamos
tramados!...
Apreensivos, lá fomos (o alferes Costa, Eu e o furriel Brito) a cavalo num "burro do mato a gasóleo", pensando na repreensão que íamos levar.
Fomos recebidos à porta d'armas com todos os
salamaleques, e "dentro" ao sermos anunciados, ouvimos um arrastar de cadeiras.
Uma porta se abriu e entramos na enorme sala de jantar.
Uma porta se abriu e entramos na enorme sala de jantar.
Todos de pé à volta da mesa, com um sorriso malandro destacou-se o Chefe.
De imediato em silêncio, escutamos:
Constatamos que os senhores ao fim de três dias
por estas paragens, cometeram três faltas graves. Ou seja: Não se dignaram
fazer-nos uma visita de cortesia para jantar connosco. Que não se repita. Boas
vindas, sentemo-nos e bom proveito.
Agradavelmente surpresos com tamanha simpatia, depois de bem comidos e bem bebidos, ouviram as nossas carências.
Para nossa surpresa, no final do repasto, ofereceram-nos uma mão cheia "das ditas" para os petromaxes.
Para nossa surpresa, no final do repasto, ofereceram-nos uma mão cheia "das ditas" para os petromaxes.
Depois disto
no que respeita ao futebol, as
nossas tropas nos frequentes confrontos, demonstravam que afinal sendo
diferentes, éramos iguais ou até melhores.
Quartel dos fuzileiros
O nosso pão continuava a ser cozinhado num
forno a gasóleo, dando bem para notar no seu sabor. O cozinheiro já tinha revelado
por diversas vezes, que se tivesse um forno a sério e a lenha, “outro galo
cantaria”.
Um dia fizemos-lhe a vontade. Pedi ao Sr. Silva
(o Samuapa*) chefe da brigada da JAEA, que no regresso do trabalho trouxesse
umas pázadas de barro para construirmos um forno.
E dito e feito.
Supervisionando a obra, baseado nas
indicações existentes nos manuais de sobrevivência, orientei a construção. Em vez
de cimento armado, fizemos em barro aramado. Há falta de ferro, a estrutura foi executada
com pequenos ramos e canas. Sem tijolos, fizemos uns moldes para executar adobos
com uma mistura de barro e capim.
Confesso que já sonhávamos com um belo assado: quem sabe, talvez no meio do tabuleiro que tinha sido usado pelo mecânico para lavar as peças, uma "cabrinha do mato" rodeada com batatinhas novas
(velhas, cortadas em quatro e arredondadas nas pontas), acompanhada pelas Cucas ou Nocais da nossa arca frigorífica a petróleo...
*******
Trabalhando com afinco, logo no segundo dia
encheu-se desde a base à soleira.
No terceiro, enquanto que o sol abrasador dava consistência secando o barro, com muito cuidado fez-se o “vigamento” da parte superior.
No terceiro, enquanto que o sol abrasador dava consistência secando o barro, com muito cuidado fez-se o “vigamento” da parte superior.
No quarto dia, entusiasmados, começamos bem cedo, terminando a
obra ao final da tarde.
Extenuados, depois de comer aquela que seria
talvez das “últimas” rações de combate ao jantar, recolhemos aos nossos aposentos para um
descanso bem merecido.
A partir de agora, é que vai ser….
Era noite cerrada, quando
ouvimos uma tremenda explosão.
Teria sido um ataque? Uma bazucada?
Teria sido um ataque? Uma bazucada?
Agarramos de imediato na G3, mas logo se
descobriu o que acontecera.
A culpa foi do cozinheiro que
ansioso
por inaugurar o forno, não esperou pelo dia seguinte. Vendo que a obra estava
concluída, e “como ainda era cedo” quis fazer um teste. Segundo contou, para fazer as brasas acendeu uma pequena fogueira que se apagou logo após. Com o ambiente húmido e
água ainda a escorrer do tecto, fez mais três tentativas que não resultaram.
Então pensou numa solução drástica e infalível.
Vendo que a fogueira uma vez mais definhava, dirigiu-se a um Unimog sacou o jerrican e:
Vendo que a fogueira uma vez mais definhava, dirigiu-se a um Unimog sacou o jerrican e:
Consciente do perigo "segundo disse" a uma distância
segura, para atiçar o lume lançou uma golfada de gasóleo directo à
fogueira!...
Resultado: Ainda o encontrei petrificado (qual estátua)
com o jerrican na mão todo negro e chamuscado, e só quando o abanei é que
reagiu. A tragédia estava à vista.
Com poucas horas de vida, a
abóbada do nosso querido forno
tinha ido pelos ares.
tinha ido pelos ares.
LUNGUEBUNGO:-(2ª parte)
o Sr. Silva "o único branco e chefe do agrupamente da J.A.E.A." era também chamado pelos subordinados de Samuapa*.
Segundo consegui apurar ao falar
com o Sóba da sanzala era um nome que significava: inconstante, irrequieto, terrible. Tipo rude e veterano, tinha tanto de simpático como de sacana como pude constatar.
Confessou-me que, ao longo da picada em
todos os estaleiros que montava, tinha como preocupação conferir se os
subordinados executavam a rede de protecção conforme as suas ordens. Segundo me
pareceu, o importante não era o comprimento nem a largura do recinto, mas sim a
altura da primeira fiada de arame farpado que não podia ser inferior à altura
de um porco. Quando tudo pronto, preocupava-se em informar o chefe da povoação para
que divulgasse o seguinte:
É expressamente proibida a tudo e todos, a entrada no
recinto vedado do estaleiro, sem autorização prévia. A desobediência é considerada invasão,
por conseguinte, abrimos fogo.
Recordo-me, Ele sentado no chão encostado à parede
da casa que construíra, com a espingarda ao lado, atirando pedrinhas tentando atrair uns frangos que rondavam a cerca.
Adivinhando o seu fim, ainda longe já os ia chamando baixinho: anda cá churrasco, anda cá churrasco. Uns segundos depois já com a espingarda na mão, gritava bem alto: Vai entrar, vai entrar.
Adivinhando o seu fim, ainda longe já os ia chamando baixinho: anda cá churrasco, anda cá churrasco. Uns segundos depois já com a espingarda na mão, gritava bem alto: Vai entrar, vai entrar.
Ao ouvirem estes avisos, por vezes os donos
correndo, conseguiam impedir a entrada dos animais. Vi um que em desespero, mandou
um mergulho ficando meio fóra meio dentro do arame farpado impedindo a entrada
do porco.
(Um a Zero) Ganhou o porco, perdeu o Samuapa. Mas nem
sempre era assim.
O dia 15 de Outubro de 1970 (dia do meu
aniversario)
Passei-o na companhia da Gina e do Gito. Era um casalinho amoroso de gémeos, que pedi emprestados à mãe. Além da ração de combate, levei café com leite, pão, bolachas, marmelada e não só. Sentados num cobertor estendido ao lado da pista e à sombra d’um "chaparro", comemos bebemos e demos cambalhotas até fartar.
Passei-o na companhia da Gina e do Gito. Era um casalinho amoroso de gémeos, que pedi emprestados à mãe. Além da ração de combate, levei café com leite, pão, bolachas, marmelada e não só. Sentados num cobertor estendido ao lado da pista e à sombra d’um "chaparro", comemos bebemos e demos cambalhotas até fartar.
À tardinha regressado ao acampamento, o Sr. Silva
“ralhou-me” porque soube que era dia do meu aniversário e fazia questão de
festejarmos a data, à sua maneira.
Como Trasmontanos que somos, o nosso Furriel
tem de aceitar algo como prenda. Depois de recusar a sugestão que apresentou “um cafeku”, sugeri que numa próxima noite que fosse à caça, me convidasse.
Umas horas depois sem Eu contar, vieram-me chamar porque o Samuapa estava à minha espera para
partirmos. Admirei-me da prontidão e agarrei na G3.
Quando
cheguei, esperava ver um grupo de homens armados em três ou quatro viaturas,
mas afinal era só um camião basculante Magirus com Ele ao volante e um
black com um holofote em cima na carroçaria. Apreensivo, perguntei se não era arriscado, mas respondeu
que era amigo dos turras.
Saindo da zona de protecção, percorremos "embrenhados na escuridão" largos
quilómetros mata adentro, até que apareceu a primeira peça de caça.
Encandeada pelo holofote, Quis dar-me a
oportunidade de a matar, mas como Eu não via nada, acabou por ser Ele.
Umas centenas de metros à frente, sempre debaixo de arvoredo, perseguia mais
uma.
Zangado com as oscilações da luz que o homem do projector fazia, (para se
desviar dos ramos das árvores que constantemente “pairavam” sobre a sua cabeça),
gritava com ele.
Com o camião parado, mas o motor a trabalhar
fazendo a trepidação característica, dizia-me incrédulo: o nosso Furriel não
consegue ver o animal? Não vê os “olhinhos a reluzir?” Sinceramente
não…
É pá, pára-me essa merda! Gritava com o
funcionário.
Segundo disse, como a caça já ia embora
agarrou na arma e uma vez mais ouvi o Pum... O ajudante desceu do camião e trouxe a peça
de caça, deixando-me envergonhado por não ver tamanho animal.
A próxima nem que fuja, tem
de ser sua, garantiu. Não tardou muito até aparecer. Ralhou uma
vez mais. Pára’miço fdp.
E agora?
O Furriel não a está a ver
ali mesmo à nossa frente? Confesso que não,
Sr. Silva.
Pára’miço fdp. Pára’essa merda.
Há terceira ou quarta reprenda, gritou: VAI A PÉ, e carregou na alavanca do camião.
A carroçaria levantou “descarregando assim" o homem, a bateria, o holofote e as duas peças de caça.
A carroçaria levantou “descarregando assim" o homem, a bateria, o holofote e as duas peças de caça.
Praguejando, iniciou o regresso.
A partir daí, foi a minha vez de quase me zangar.
Ó Sr. Silva, se me quer dar defacto uma prenda, volte
atrás e vamos buscar o homem por favor. Sem me ouvir, acelerava, e tive de repetir diversas vezes,
para finalmente me fazer a vontade.
......
Naquela mata cerrada depois de tantos quilómetros percorridos, pensei apreensivo, que seria quase impossível descobrir o local onde deixou o preto, mas rapidamente o Samuapa foi ao encontro dele que carregando a bateria de holofote ligado, vinha arrastando os dois animais.
Agradece ao nosso Furriel, que hoje faz anos.
Cansado mas sorridente adivinhava o que se passou, a partir desse
momento
ganhei um Amigo que gostava de um dia encontrar.
ganhei um Amigo que gostava de um dia encontrar.
Esta é uma sacanagem do Samuapa, entre muitas
outras….
Uns tempos depois deixamos o Lunguébungo para regressamos à base, como quem diz, ao Lucusse.
Subscrever:
Mensagens (Atom)












