domingo, 17 de fevereiro de 2013

Tenho 1 parafuso a menos?..Desculpa!..tenho é 2 a mais -(3/3)

Finalmente a Fisioterapia

No Hospital do Luso deram-me nova Guia de marcha.
Graças a Deus, que hoje não apareceram as freiras cuja prioridade me impediram de viajar na semana passada.

 Apanhei boleia num Dakota que transportava um grupo de pára-quedistas acabados de fazer uma operação nas matas do Katói.
Exactamente este o Dakota (no lado esquerdo da foto) 

Quando entrei no avião deparei-me com uma confusão geral.

Reparei que os Páraquedistas depois de lançados enrolam o material à balda, cujo volume aumenta desmesuradamente. Por isso, os bancos estavam totalmente ocupados com páraquedas. Assim, entramos quase de gatas e viajamos deitados entre os ditos e o tecto do avião.
Embora a distância em linha recta entre o aeroporto do Luso e o de Luanda, não chegue a 1000 Km para mim pareceu uma eternidade.

No aeroporto esperava-nos uma ambulância que nos transportou para o Hospital Militar de Luanda. Fui consultado à chegada por um médico de clínica geral, um tal Doutor Pimenta, que estava acompanhado de alguém com o mesmo apelido. Acharam graça ao trio "PIMENTA" que se formou, e sem haver parentesco nem eu pedir nada, “simpaticamente” escreveu na guia de marcha (no canto superior esquerdo e na diagonal), "dispensado de fazer serviços".
Agradeci pensando: já me safei….


Depois da consulta fui levado para o D.A.A. (Depósito de Adidos de Angola),
onde fiquei a pertencer.
  

Aí, um furriel chico “Marques” também conhecido pelo cognome
"O bom sacana"
deu-me as boas vindas. Quase de imediato descobri que a minha chegada para ele não era surpresa. Até já me tinha escalado para fazer serviço no próximo fim-de-semana.
Disse-lhe que não podia porque estava dispensado de fazer serviços.
Não acreditando, pediu-me a guia e leu a anotação. Vi que ficou danado, mas sorriu, Sabia que na segunda-feira Eu ia ser presente ao médico da especialidade.
Disse-me que era um ortopedista exigente e que “pela experiência” ia alterar a indicação que o médico de clínica geral escreveu.

Na manhã seguinte, saiu na ordem de serviço do Quartel:

Mas parece que o gajo era bruxo.

Na segunda-feira, o médico ortopedista perguntou-me quem escreveu aquela anotação, e contrapôs: Errado, antes pelo contrário: o Furriel até deve exercitar os braços. E mais não disse.
Pensei: O que é bom, acaba depressa.

++++

Saí do consultório, e quando fui à secretaria do Hospital buscar a guia, fiquei a saber que o médico alterou ligeiramente a escrita.

“Fez uma chamada, que mais parecia o sinal da raiz quadrada”, e acrescentou por cima da frase, a palavra “todos”, ou seja: Não pode fazer “TODOS” serviços.
Foi o Cabo Escriturário que me alertou desse facto, e perguntou:

O meu Furriel, quer que o “sáfe”?   …CONCERTEZA nosso cabo,
Mas tenha cuidado com o que vai fazer.

Ok Furriel, vamos tentar.

Em vez de agrafar a folha de presenças das futuras consultas, por detrás daquela guia, agrafou-a pela frente com três agrafos formando um triângulo no topo.
Assim tapou a palavra “todos”, que estava ligeiramente acima da escrita inicial.
Com o coração nas mãos fingindo que nada sabia, cheguei ao quartel.

O esperto do Marques pediu-me de imediato a guia. Ao não ver nenhuma alteração “porque não descobriu a maróska” perguntou-me: Afinal, Quem é o teu padrinho?



E assim me safei todo o tempo que lá estive, de ser escalado para serviços.
As idas ao tratamento iam acontecendo pela manhã, mas "no início" de tarde tinha de marcar presença no Quartel e só à tardinha é que ia para a cidade, para a pensão onde estava hospedado.
A partir de certa altura "sem dar satisfações ao tal Marques" pedi ao comandante da Companhia para me dispensar das presenças de tarde, ao que acedeu e agradeci.

Entretanto...



No fim de uma tarde resolvi ir ao Quartel e cruzei-me com o furriel Marques, que até parecia que me esperava no bar dos Sargentos. E disse: 
Ó Pá, poderás ter esses problemas físicos mas com certeza que não tens problemas na língua. Com ar irónico disse:
Amanhã estás escalado para dares uma aula de R.D.M. (Regulamento de Disciplina Militar) de imediato respondi:
Não dou

Mas logo após pensei melhor e “sem lhe dizer” resolvi colaborar, até porque estava farto de não fazer nada.

Mas o azar aconteceu:


No dia seguinte por ironia...acordei tardíssimo.

Sem perder tempo para apanhar o Machimbombo chamei rapidamente um táxi,
e rumei ao Quartel para dar a aula. Quando lá cheguei, fui ter com o Marques para “pedir desculpas pelo atraso” mas o sacana respondeu:
Vai pedir desculpa mas é ao Comandante da Companhia, porque já participei de ti.



E assim fiz.. De imediato falei com o Capitão, mas não me livrei de ser Arguido. Ouvido pela justiça, felizmente acreditaram na minha versão "de querer dar a aula" e o Capitão retirou a participação. Mas, para justificar a sua omnipotência,  definiu que Eu seria punido com... 
5 sargentos de dia à Benfica.

Iam de certeza, ser cumpridos um a um, aos fins-de-semana.
Como Eu previa o Marques (que nunca me topou  desde que sugeri que ia mudar o meu nome para não pensarem que éramos parentes) ficou contente e sorridente disse:
Oi, Domingo estás a alinhar. Certo? 

Mas ironia do destino, vim a saber no dia seguinte, que o meu Batalhão tinha acabado de chegar ao Grafanil para embarcarmos rumo à Metrópole.
Confirmei a veracidade da notícia e rapidamente fui à secretaria falar com o Sargento da Secretaria do D.A.A.
Sem referir nada do acontecido, pedi que me desse Guia de Marcha, porque o meu pessoal tinha chegado ao Grafanil e não fazia sentido Eu permanecer ali, Adido.

Em pouco tempo tinha na mão a dita Guia.

Ainda pensei falar com o tal Marques para lhe descobrir a falcatrua, mas calei-me, pois a mesma técnica poderia servir para safar um próximo.



(pode ser que este artista, um dia venha a ler este Blogue, e repare que outros Marques se levantam)



Mais tarde já na Vida Civil, fui operado através da Caixa da A.P.T. (The Anglo-Portuguese Telephone Cª Ltª) ao braço direito, no Hospital de Santa Maria no Porto.

Aí vim a saber que afinal as fortes dores que tinha sentido após o acidente, tinham toda a razão de ser. Nas radiografias descobriu-se que a cabeça do úmero que devia parecer uma esfera, tinha o aspecto de duas metades desalinhadas, sinal que tinha partido e auto-soldado (de esguelha).  

  
E mais não digo.....PRONTO


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Operação "Limpeza"



Também aqui no Leste de Angola, mais precisamente no Lucusse, os miúdos da sanzala rondavam a cozinha do nosso Quartel.
Quase sempre, depois de encher a barriga de misérias, levavam “nas suas latinhas” alguma comida, não os restos, mas sim sobras limpas para si e para os seus.
Só que desta vez “para o merecer” alguém sugeriu que tinham de descascar batatas, ao que todos concordaram.
Certo! ...mas o entusiasmo exibido depressa terminou porque, em primeiro lugar  deviam tomar um banho.

Depois de “convidados” a entrar no balneário, tornava-se quase impossível escapulir porque um soldado à porta controlava "não só" a saída, como a eficácia da operação de limpeza.


Eram quase todos habitués e como sempre o puto mais reguila destacava-se do grupo. Resolvi meter-me com ele.
É pá…esfrega-te bem, não te quero ver preto, ao que respondeu:
Perreto não meu Furiel, eu sou Cástânho. Tens razão pá, Eu também não sou branco.
 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

CISMI - Curso de Sargentos Milicianos ( 1/3 )


Após assentar praça no R.I.5 nas Caldas da Rainha, fui para o C.I.S.M.I. (Centro de Instrução Sargentos Milicianos) em Tavira. Na manhã do dia seguinte, a apresentação aos nossos superiores. Calhou-me logo o famigerado tenente Rosário, mais conhecido pelo Trótil.
De tarde fomos para o campo de treinos conhecido por Atalaia, mostrar no terreno aquilo de que éramos capazes. Eu era o segundo na fila indiana que se formou.
Estava habituado a fazer as provas físicas no escalão máximo (1ª categoria). Após a ordem, e em passo de corrida, depois de saltar ao galho na plataforma da 1ª e de traspassar a paliçada e o muro também de 1ª, chegou a vez de saltar a vala.
O camarada que ia á frente escolheu a de 2ª mas para mim a de 1ª era canja. Por ser verão, não tinha água e via-se que estava quase cheia de calhaus.
Sem temor, continuei a correr a com toda a força, ganhei impulso e saltei.
Já no ar, é que reparei que ia pousar os pés num buraco, pois faltava o fardo de palha, usado para amortecer a queda. Não conseguindo "travar" ou corrigir, acabei por acertar com o calcanhar do pé direito no murete de tijolo onde encaixava o dito fardo.


A partir deste momento confirmei a veracidade do ditado – Incha Desincha e Passa- porque senti um “estalo” e minutos depois já inchado, o pé não cabia na bota. Primeiro a Enfermaria, logo a seguir uma guia de marcha para me apresentar no Hospital Militar de Elvas. Sózinho, amaldiçoando a sorte lá fui “logo no segundo dia da Especialidade”, de comboio em pleno Alentejo e numa tarde tórrida. Chegado á estação, coxeando, tomei um táxi e com a guia de marcha, apresentei-me no Hospital. Fui para uma enfermaria onde permaneci numa cama, quase totalmente ignorado.
Digo Quase, porque "ao passar o carrinho dos morfos" me foram dando almoço e jantar. Na expectativa, o tempo foi passando e o pé desinchando sem que ninguém me tenha dado ao menos um comprimido. Três dias passaram e Eu, já melhor, com receio de perder a Especialidade fui á secretaria pedir que me dessem alta. Nesse momento ia sendo preso, porque: estive ausente de Tavira e “não tinha entrado” no Hospital. Afinal de que é que o nosso Cabo Miliciano se queixa?

Agora? - de nada!. Quero ir-me embora. Regressei assim a Tavira no quarto e último dia permitido para ausências.

Estive internado pouco tempo, mas o suficiente para ter visto logo no primeiro dia, um Soldado básico de vassoura na mão, que interrompendo a varredura, ia dando palpites de como se deviam dar injecções. O Furriel enfermeiro irritado de tanto o ouvir, perguntou-lhe se as queria dar. De imediato, Aceitou.

De cupróar, o paciente tremia e implorava que não. Reparaste onde o algodão com álcool se cruzou? Sim, foi aqui. Estúpido, não podes pôr a mão. Infectaste isso do novo. Desculpe meu Furriel. Ok vamos lá começar de novo.

Em resumo: quando saí, já todos queriam ser picados pelo básico porque ao contrário do Enfermeiro, era mais humano, mais meiguinho.

CISMI - Curso de Sargentos Milicianos ( 2/3 )



Regressado do Hospital de Elvas, estou de novo em Tavira.

Finalmente deu para conhecer o Tenente Trótil, espécime único pela sua excentricidade. Castigava ou premiava por tudo ou por nada. Dizer que tinha uma pancada é pouco.
Tinha a face um pouco desfigurada com algumas cicatrizes porque um dia “armado em parvo” em vez de utilizar um alicate próprio para o efeito, estrangulou um detonador com os dentes e teve azar. O mesmo rebentou-lhe na boca.
Solteirão, de pequena estatura, convencido e gingão o Tenente Rosário  Sapador e oriundo dos Pupilos do Exército, tinha ciúmes dos militares que nos bailaricos de Conceição de Tavira e arredores, se iam safando com as raparigas enquanto que Ele “mais velho e de fraca figura”, era por vezes rejeitado levando a respectiva tampa.
Se Ela não dançava com Ele, então não dançava com ninguém.

Despeitado, costumava dar um ultimato, segredando ao ouvido daquele que estava a dançar com aquela que o rejeitou:
O Barão tem “x” minutos para se apresentar no quartel.
E o pobre militar zarpava de imediato a todo o gás para chegar antes do prazo terminar, pois o Trótil já lá estava para confirmar.

Nos Crosses, adorava ver a nossa figura, quando na estrada, Ele no meio Nós nas bermas e em passo de corrida, inesperadamente gritava ALTO. Tinhamos de ficar como estátuas nesse preciso instante, conforme sua exigência.
Olhava com toda a calma para todos nós, e tinhamos de resistir sem rir, aos seus comentários jocozos alusivos às nossas diversas e instáveis posições.
Se tudo corria à sua maneira, como era hábito agradecia dizendo: Meus senhores, o Pelotão está taxativamente porreiro.
Meia Volta, MARCHE. e regressavamos ao Quartel ás vezes com poucas centenas de metros percorridos, em vez dos 9 Km habituais, perante o protesto do comandante do Quartel quando nos via chegar.
...........

Era altura do verão.
Os vendedores de gelados, depois de venderem tudo nas praias de Tavira, costumavam encher com água as cubas dos triciclos motorizados, e aceleravam aproveitando as irregularidades do terreno, dava assim para lavar as vasilhas e chegar rapidamente ao máximo de pelotões que recebiam instrução no campo de treinos debaixo de um sol abrasador.
Explorando os militares, vendiam a bom preço a água fresquinha e com diversos sabores, principalmente a "tutti frutti". Possuiam vários púcaros de alumínio para aviarem o máximo de sedentos.

Um dia, lamentamo-nos ao tenente Trótil. Interrompeu a aula e ouviu-nos  atentamente. Por o pré ser escasso, dissemos ao tenente, que não achavamos bem a exploração feita por este algarvéus.

Para nossa surpresa, chamou os “aguadeiros” que espreitavam a oportunidade do intervalo para aparecerem. Pediu uma geral para todo o mundo. Hoje era Ele que pagava.
Foi um esfregar de mãos de contentamento para os vendedores.
Desconfiados bebemos à fartazana e no final quando lhe apresentaram a conta, disparou aos chutos e pontapés, e nem os mais pobres "aqueles que não tinham transporte" que apareciam com os cântaros à cabeça, se safaram. Aliás esses ainda ficaram pior, com as vazilhas partidas.
Escusado será dizer que a partir dessa altura, não apareciam perto do nosso pelotão. Se quiséssemos beber tínhamos de ir ter com eles e com o dinheiro na mão.

Os que lidavam directamente com Ele, ou os que o conheciam melhor, raramente eram apanhados desprevenidos.
Mas uma noite no refeitório, ainda em sentido aguardando a ordem de sentar, Eu segredei ao furriel de serviço queixando-me do pouco azeite existente no galheteiro posto na mesa, e acabei por ser apanhado.
Ó Barão! Eu não disse que queria ouvir as moscas? Pode sair e dirigir-se de imediato ao caifáz.
Pronto, estou frito. Eu conhecia o significado, era a Barbearia. Acabo de apanhar uma “carecada“ e sabia que ele não perdoava. Aguardei a minha vez (Quando o Trótil estava de oficial de serviço, o Caifáz abarrotava de clientes), no entanto quis o pente nº2 em vez do zero, e responsabilizei-me perante o barbeiro que era Eu o responsável caso fosse detectada a meia carecada.
Enquanto estive na barbearia, ele “ao longe” na penumbra, sentado num cadeirão como de costume, espiava se o castigo era ou não cumprido. No final, apresentei-me como era sua exigência dizendo: meu tenente dá licença?, castigo cumprido. Ao que respondeu:
                   Qual castigo?!!       ...Ó Barão, Eu estava a brincar.