sexta-feira, 5 de julho de 2013

Musseque do Cazenga



Satisfazendo a curiosidade do Anónimo do costume, aqui coloco duas fotos para que possam ficar com uma ideia, da dimensão do Musseque do Cazenga.

São fotos tiradas por mim, de cima do Reservatório da Água.

Trata-se de uma vista parcial, dado que falta a zona das Vivendas. Era a Zona dos "ricos", com a estrada que aqui  se vê a separar, e com uma área muito menor que a esta primeira.

Para melhor compreensão, lê os comentários da história
(Que Deus me perdoe, mas tinha de ser assim)

Recordo um dos cartazes alusivos ao tema, fixo "à entrada" no muro do jardim de uma vivenda, onde se podia ler em letras garrafais:

(POR FAVOR NÃO PÁRE, GENTE SÉRIA)



















Como se depreende pelas imagens, era um Musseque enorme
com a maioria das "casas" em madeira, e telhados em chapa de zinco.

O reservatório da água situava-se no extremo, e por isso só tirei fotos de frente e para o lado direito do mesmo.
Como alguém já referiu, era defacto um bairro perigoso. Nós (os operacionais), detestava-mos os patrulhamentos nocturnos. Os cuidados tinham de ser redobrados para que "sem iluminação" ninguém caísse  nos enormes buracos “autênticas armadilhas” que eram utilizados como lixeiras.

Se quiseres, podes carregar neste link para leres uma ou duas histórias passadas neste Musseque
Era pois um perigo, perseguir a correr um meliante qualquer, que “conhecedores do terreno” muitas vezes fugiam pelos caminhos onde existiam essas lixeiras esgueiravam na escuridão, quase sempre pelos becos galgando muros e muros, dos quintais.

Esses muros eram quase todos feitos de tábuas, onde predominavam as aduelas de barril. Pela proximidade, eram de certeza aduelas provenientes do Grafanil, onde se “gastavam” diariamente dezenas de barris de vinho, que não tinham devolução.

Ainda me lembro da maneira como esses eram abertos na nossa cozinha.
Com o tampo destinado à torneira virado para cima, uma varridela, uma pequena marreta, toda a força, e zás…
De imediato as tabuinhas do tampo a boiar.

Depois era só retirá-las e servir o vinho com um púcaro aos militares que sedentos e com saudades da metrópole, bebiam com satisfação aquele delicioso néctar produzido no nosso país. O facto de meter o braço “cada vez mais fundo” para ir pescar o vinho era descurado. A sorte é na altura ainda não existia a ASAE.


As aduelas de barril além de servir para vedar quintais, também (com alguma imaginação) eram utilizadas para construir entre outras, mesas e cadeiras.

Podes ver-me aqui sentado numa feita por mim, à frente do BAR exclusivo do meu pelotão, no Dange.

Ao fundo o Fortim que. e tal como a ponte, andavam ainda em construção.
(A separar-nos, o Rio DANGE)

Além do mobiliário também serviram para construir todo o interior do BAR principal. O BAR  "Kytonga" que mais parecia o bar da mariquinhas construído com tabuinhas*.


Com todas as tropas concentradas na margem norte do rio Dange (uma Companhia de Engenharia e a nossa de Atiradores), calhou em sorte ao meu pelotão (foto abaixo) sermos destacados do resto do pessoal, para a margem sul**.

Resvés à densa mata dos Dembos residia-mos isolados
 e pior ainda, à noite iluminados pelos potentes holofotes instalados no morro em frente.
Com algum receio, assim vivemos semanas e semanas, temendo a toda a hora sermos metralhados com toda a precisão, uma vez que os turras podiam ver ao longe as nossas posições e todos os nossos movimentos.

Duas histórias no Dange


*- Aguardo que um dia “conforme já pedi” o Ex-furriel Vítor Santos me envie a letra completa dessa nossa canção.

E esse dia chegou..podes agora ler e até cantar essa canção
 


**- Ainda hoje Eu vivo na margem sul "do rio Tejo" e desta vez, com a certeza que estamos a ser metralhados com precisão, por aqueles que vivem na outra margem, com impostos e outros sacrifícios porque "quase todos" estamos debaixo d'olho dos que se governam do País.


sábado, 8 de junho de 2013

Que Deus me perdoe, mas tinha de ser assim



O nosso Batalhão de Caçadores  2872,
sediado por uns meses no Grafanil, (uma espécie de Santa Margarida da metrópole) era um Batalhão de Intervenção que “qual corporação de Bombeiros”, actuava onde havia fogo.

Mas não só de tiros vive o homem, e nos intervalos para descansar, acumulávamos a guerra com outros serviços diários, tais como:
Patrulhas no Musseque do Cazenga, escoltas às colunas MVL de reabastecimento (Movimento de Viaturas Logísticas), aos pontos estratégicos como a Fábrica da pólvora, a Estação principal do Cacuaco de abastecimento de águas à Cidade de Luanda, a Subestação principal de Electricidade lá do sítio, o Controle de pessoas, a Segurança  e a Vigilância (24 horas) da Rede de arame farpado que circundava a Cidade,  etc etc.

Rede de Arame Farpado com início e fim "dentro" do mar.
 Esta é a vista, observada pelo Sentinela do Posto nº1
Era impossível mudar de lado sem o "nosso" consentimento 

Posto de Sentinela nº1  (lado da Corimba)


 ****   ----   ****


Incluída nos etc. tínhamos (dentro da nossa jurisdição) os patrulhamentos até Catete, dos comboios com destino a Nova Lisboa, e não só.


A história deste patrulhamento, destaca-se de tantos outros por um pequeno pormenor. Nesse dia, embarcamos como sempre em Luanda na estação de origem. Eu e o meu grupo, numa rápida inspecção visual, verificamos que tudo estava normal até mesmo a confusão gerada por muitos passageiros que sem lugares marcados e após a ordem de embarque corriam desordenadamente para os lugares ao pé das janelas. Uns minutos depois, com o nosso "aconselhamento" e a partida, a discussão acabava rapidamente.

A viagem começava com o comboio a atravessar alguns bairros de lata, onde muitos fechavam os vidros das carruagens com receio de alguma pedrada e não só, pois passava em sítios a pouco mais de um metro das “casas”.
E assim, por não haver tanta circulação de ar, sobressaia de imediato o cheiro característico a catinga que emanava de "alguns" corpos suados, juntando-se a outros odores, nomeadamente de urina e a peixe seco que mais fazia lembrar o inesquecível óleo de fígado de bacalhau, da nossa infância.

Era vulgar, ver famílias levarem um penico na viagem, que colocavam debaixo dos bancos. Sem vergonha, eram usados sem inibições por mães e filhos nos momentos mais aflitivos.
Os que não traziam “farnel” para a viagem, como a tradicional mandioca, milho assado ou outros, desenrascavam-se comprando nas estações e apeadeiros às “peixeiras”, que de cestas à cabeça apinhadas de peixe seco, esperavam o comboio para fazerem negócio.

De Luanda até Catete (cerca de 50 Km) os comboios não usavam o vagão Rebenta Minas nem havia patrulhamento à linha porque era considerado Zona de segurança. Fora dessa zona, todo o cuidado era pouco.
Para evitar os frequentes ataques e as minas, era comum as composições levarem agarrados à frente da máquina, um vagão carregado com várias toneladas de terra fazendo de rebenta minas, conforme podes ver nas imagens abaixo. Por vezes viajavam tropas deitadas e fortemente armadas no seu interior.


Assim sendo, era nossa obrigação, inspeccionar e controlar somente o interior do comboio onde se inclui como é óbvio, os passageiros.

Fazendo jus ao lema do nosso Batalhão (CONQUISTANDO OS CORAÇÕES SE VENCE A LUTA), educadamente Eu e o meu pessoal sorrindo, abordávamos os passageiros convidando os adultos a apresentarem o Bilhete de Identidade e o Cartão de Residência, afim de se confirmar os elementos neles contidos.
Nas traseiras da composição, seguiam as carruagens “open space” da Plebe, e na frente, a dos VIPs.

Cumprindo escrupulosamente as indicações do comandante, evitávamos descriminar pretos e brancos. Tudo decorria sem grandes percalços até que chegamos às carruagens de 1ª classe. Acompanhado pelo meu pessoal, abrimos a porta do primeiro compartimento e demos os Bons dias.
Logo à entrada, estavam três africanos e mais ao fundo perto da janela, um casalinho de brancos ternurentos, que “enlevados ou não” pareciam estar nas nuvens, aos abraçados e beijinhos.
 
Os primeiros mostraram de imediato os documentos “que era obrigatório possuir”. Quanto aos namorados, tive de tossir e repetir o convite pedindo “bem alto e em bom som” a identificação, mas sem efeito, pois continuávamos a ser ignorados. Escusado será dizer que tiveram de ser “abanados” para caírem na real. Fomos então surpreendidos com a altivez usada, (provavelmente filhos de alguém com pedigree) e descobriu-se afinal que Ele não tinha em seu poder os ditos elementos de identificação.

À frente de alguns passageiros que entretanto se reuniram no corredor, contestou e ameaçou, mas de nada lhe valeu. Foi então convidado “à semelhança do que era habitual” a descer na próxima estação caso não mostrasse os cartões até lá.

Em suma, foi com alguma resistência que o “convencemos” a sair na Estação de CATETE. Mas não ficou só "solidária, num acto de amor” a namorada também desceu.



A polícia tomou conta da ocorrência. Quanto a nós, ficamos uma vez mais apeados, porque chegamos à estação limite, e fomos substituídos como estava previsto, pelos militares do  Cantão seguinte.
Embarcamos nos Unimogues que “pela estrada” já lá estavam à nossa espera, e regressamos à base como quem diz, ao Grafanil.

Nós, com o sentido do dever cumprido, e Eles “tadinhos” com Azar…

Que Deus me perdoe, mas tinha de ser assim