quinta-feira, 20 de março de 2014

Os Aerogramas e as MADRINHAS de GUERRA


Combatentes e 'madrinhas de guerra' trocavam cartas 'de fazer corar'


Os antigos combatentes chamavam-lhes “madrinhas de guerra”, mas algumas das cartas que eles e elas trocavam eram de tal forma “atrevidas” que só com “bolinha vermelha” poderiam ser reproduzidas num qualquer programa de televisão.

“Muitas vezes, os combatentes aproveitavam as madrinhas de guerra para ‘despejarem’ toda a sua criatividade e todas as suas fantasias sexuais”, explicou hoje à Lusa José Manuel Lages, director científico do Museu da Guerra Colonial de Vila Nova de Famalicão.

Na quinta-feira, para assinalar o Dia de S. Valentim, aquele museu vai acolher uma tertúlia com alguns dos que viveram na primeira pessoa a experiência de escrever e/ou receber as cartas em cenário de guerra.

Como refere fonte municipal, trata-se de um “casamento improvável” entre uma unidade museológica que evoca um dos mais difíceis e sangrentos estágios da História de Portugal e uma efeméride “tão cor-de-rosa” como o Dia dos Namorados.

A iniciativa integra ainda a exposição temporária de algum do vasto acervo que aquele museu detém nesta área da correspondência de guerra.

José Manuel Lajes confessou “alguma perplexidade” na escolha das cartas da expor, face “às barbaridades e aos termos perfeitamente indecorosos” que muitas delas contêm. 

“Mas também há cartas de verdadeiras madrinhas, de pessoas, como professoras, por exemplo, que escreviam aos combatentes apenas e só para lhes darem algum alento”, acrescentou.
As “madrinhas de guerra” eram quase sempre moças solteiras, sendo muitas vezes os respectivos endereços trocados entre os soldados.

Muitas vezes, as pessoas escreviam-se sem se conhecerem pessoalmente, mas há alguns desses casos que resultaram em casamento.
Ao fim de algumas cartas trocadas, as “madrinhas” enviavam fotos normalmente “de corpo inteiro”, para “mostrarem o que valiam”.
“Vestiam a sua melhor roupa, faziam a sua melhor pose e faziam questão que a foto fosse de corpo inteiro”, contou José Manuel Lajes.

Aparentemente, as cartas “sem pruridos” dos combatentes não as escandalizavam, já que as mulheres acabavam por alimentar esse “clima”, com respostas que “levavam sempre a sua pitadazinha de provocação”.
Os “aerogramas”, nome que tinham as cartas, eram disponibilizados pelo Movimento Nacional Feminino, não precisavam de selo e eram transportadas gratuitamente pelos aviões da TAP.


Por vezes, o saco com os aerogramas era atirado do avião, sendo sempre o momento da distribuição da correspondência aguardado com particular ansiedade pelos guerreiros.

Recorda um antigo combatente.

“Eu tinha umas cinco ou seis madrinhas e recebia umas 19 a 20 cartas por mês. De que falava? Falava de tudo, era uma espécie de despejar o caixote. Falava-lhes de ser herói, falava-lhes de solidão, falava-lhes de medo, falava-lhes de malandrices”.



Aconselho-te vivamente que faças uma visita ao
museu da guerra colonial - de - Vila Nova de Famalicão

e quem sabe, se depois disso, não acabes por visitar
o
 ESTÁS CONVIDADO

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A minha Lavadeira

Vila de QUIBAXE

Mesmo antes desta "estadia forçada", a Vila não me era totalmente desconhecida. Já aqui estivera por diversas vezes, nas escoltas às nossas colunas de reabastecimento.
Normalmente partíamos do Dange de manhã muito cedo e se tudo corresse bem, chegávamos a QUIBAXE bem antes do meio-dia. Os que ficavam no acampamento esperavam desde logo pelo nosso regresso, não porque estivessem sequiosos ou famintos à espera do reabastecimento, mas porque era nas colunas de reabastecimento que se levava e trazia o ansiado correio.

Poderei dizer que senti na pele durante a nossa estadia no Dange, as quatro estações do ano a que estava habituado. Em plena mata dos Dembos cheguei a ver nevoeiro, a sentir frio, a sentir um calorão desgraçado, e quando chovia, chovia.
Nalguns dias de chuva, a tracção às quatro rodas de nada valiam.


Existiam troços da picada, onde as viaturas para circularem, só quase transportadas ao colo.


Naquele terreno montanhoso e barrento, o lamaçal era tanto que por vezes tínhamos de nos socorrer dos famosos guinchos. E como já referi algures, nestas situações os “burros do mato” eram considerados, os reis.
De fraca estatura, muitas vezes contornavam as Berliets para as desenrascar.
Por não terem direcção assistida “e para não estarem sujeitos a partir as mãos” vi por vezes, condutores largavam o volante e deixar o Unimog seguir pelos trilhos “autênticas valas” que os rodados da colunas tinham feito nos dias anteriores.

Se no dia do reabastecimento o trajecto decorresse sem incidentes, sobrava-me algumas horas para laurear a pevide, mesmo descontado o tempo  dedicado à supervisão. Dava para "entre outras tarefas", tirar a barriguinha de misérias comendo um belo bife de pacaça no restaurante principal, e ainda visitar a minha lavadeira, para lhe entregar a roupa suja e trazer a lavada.
Era uma Preta “que não recordo o nome”, a quem confiava a minha roupa. Sempre certinha, esmera-se por trazer o Furriel nos trinques, no que à roupa diz respeito. Sempre que a procurava era difícil encontra-la. Mas certa vez quando cheguei à Vila, ao contrário do costume, estava à minha espera.
Estranhei vê-la ali, e reparei que mesmo ao longe abanava os braços para chamar a minha atenção. Curioso, "logo após distribuir as tarefas do pessoal" dirigi-me a ela. Ainda a uns metros de distância deu-me a triste notícia.

Meu FURRIÉ, tás Fudido. Loubaram a loupa toda.*

Não sei se havia de rir, se chorar… É pá, não acredito no que dizes. Não me digas que a deste a um turra qualquer, e amanhã vou ser atacado por um preto fardado, e ainda por cima, armado em furriel.

É que dessa vez, também tinha levado o blusão p’ra lavar, e descobri mais tarde, que só tirei as coisas dos bolsos esquecendo-me das divisas.
Lenços, meias ou cuecas, não havia problema porque tinha em quantidade. Quanto a calças e camisas não podia dizer o mesmo. Ameacei-a dizendo-lhe que se não encontrasse a roupa, tinha de a pagar e mudava de lavadeira. Quase chorou e segundo disse, já tinha procurado em todos os coradouros, mas sem resultados. Enfim... Escusado será dizer, que continuei com a mesma.
Nada a fazer: Contra factos não há argumentos.

Quando chegamos ao Grafanil, antes da partida para o Leste, visitei o Casão Militar onde comprei a roupa em falta, repondo o stock. Aproveitei ainda para comprar o meu novo Gravador de bobines GRUNDIG TK247 de luxe.
Ainda hoje “mais de 40 anos passados” e após uma pequena revisão, é aquela máquina. Grava e reproduz no BAIXATÓLA’s BAR os vários quilómetros de música, quase toda ela gravada em Angola. Recordo que vi um irmão gémeo deste gravador na minha 1ª Operação (escolta do MVL a São Salvador do Congo) quando só tínhamos 5 dias de Ultramar. Gostei e sonhei com ele meses a fio.
Calhou mesmo bem, o ter recebido retroactivos de um pequeno aumento do ordenado para juntar às minhas parcas economias. Chegara pois o momento de o comprar.




A história poderia ficar por aqui mas não resisto a contar o resto: ao balcão disseram:
O meu Furriel está com sorte, ainda existe um em stock. Quando acabei de o comprar, “e porque demoraram muito tempo a procura-lo nos armazéns” sem saber saí do Casão Militar depois do último transporte directo ao Grafanil ter zarpado. Resultado!

Com as roupas numa mão e o “caixote cintado de cartão” que continha o gravador na outra, andei a pé largas dezenas de metros com aquele pesadelo, direito à estrada principal para tomar um táxi. Cansado, ia mudando de mãos até que resolvi pôr o gravador às costas.

Não sei como, sem querer deixei escapar o dito, escorregando pelas costas abaixo. Em desespero, consegui “quase ajoelhado” apara-lo com os calcanhares das botas, o que deu para chegar ao chão com a queda amortecida. Sabia que se fosse a válvulas tinha sido o seu fim, mas como era um aparelho robusto, moderno, transistorizado e alemão, rezei para que nada lhe tivesse acontecido. Com suores frios e os calcanhares doridos, apanhei o táxi e voei para uma tomada de corrente eléctrica. Ao abrir o caixote vi que o gravador tinha uma amolgadela na lateral, mas isso pouco importava. Queria, era fazer um teste.

Atenção Senhores óvintes, 1, 2, 3 Experiências…. rebobinei e Repetiu-me.

então agradeci… OBRIGADO SENHOR!

 *- Ficar sem roupa, seria a minha sina. Não porque fosse stripper, mas porque no Leste após acidente, fui evacuado numa avioneta do mato para a cidade do Luso, de maca e nu conforme já aqui contei, na história:
Tenho 1 parafuso a menos? Desculpa!.. Tenho é 2 a mais.