domingo, 22 de junho de 2014

(a história nº1)

Era uma das grandes etapas, NA VIDA DUM HOMEM

A TROPA

Nada aqui seria mencionado, se esta minha 1ª experiência, tivesse corrido bem.
Antes pelo contrário; O início começou turbulento…



Começo por faltar à Inspecção pela simples razão de que: após o meu Curso Industrial tirado na Escola Comercial e Industrial de Vila Nova de Famalicão, fui tirar (em paralelo com o trabalho) na Escola Industrial Infante D. Henrique no Porto, o Curso de Especialização de Desenhador Industrial. E faltei porquê? Porque no exacto dia da Inspecção, tive o meu exame de Aptidão do Curso de Desenhador. Era o fim do curso, e não podia falhar.

Preocupado, fui no dia seguinte ao Centro de Recrutamento Militar, apresentar a justificação oficial que pedi na secretaria da Escola, e para minha surpresa, quando a leram disseram que estava muito bem feita, com selo branco e tudo, só que não servia. Tinha sim, de levar um Atestado Médico, justificando uma doença impeditiva de me apresentar. Contestei mas de nada valeu. (Autênticos pneus…)

Fui então a um médico de Clínica Geral que conhecia, o Dr. Rodrigues que após Eu lhe contar a história, mesmo contrariado, lá redigiu o documento falso. Já lá vão quase "50 anos" e não recordo mas, devo ter tido uma diarreia qualquer.

 

A segunda chamada, foi em Braga. Era um dia de inverno e o Centro de Recrutamento mais parecia uma casa assombrada. Um edifício em granito “mais velho que a Sé...”, sombrio, e com alguns vidros partidos. Éramos bastantes e apreensivos aguardávamos ordens. Não tardou muito até aparecer um enfermeiro que falando alto e bom som, convidou os Mancebos a ficarem descalços, dos pés à cabeça.


A corrente de ar era enorme e por isso tilintávamos de frio, “um brincalhão do grupo disse”: poderá ser a nossa “sáfa” porque, com tudo tão encolhido, poderão pensar que ainda não temos idade para ir à tropa.


Após aquele tratamento de choque, e logo no primeiro dia de tropa, “para tristeza da minha Mãe, que já tinha o meu irmão mais velho nestas andanças, e sabia que o mais novo, entraria antes de Eu sair”, trouxe para casa o veredicto esperado. APURADO PARA TODO O SERVIÇO MILITAR.

Uns meses depois, começou a saga no R.I.5 nas Caldas da Rainha


 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Procurei, procurei...

Mais duas ou três.

CAMARADA:  Reconheço  que todas as Minhas Lembranças que aqui tenho postado neste nosso Blogue, carecem de um índice sequencial, o que dará mais sentido ao desenrolar dos mais de dois anos da minha guerra, por terras de África. Dado que “como já escrevi” surgem quando menos espero, são por isso mesmo aqui colocadas, aleatóriamente.                                     Em breve irei atribuir nºs de página.
(Infelizmente, este "problema" a Ti não se põe, com respeito às histórias que enviaste!..)

Tal como Tu, por vezes basta-nos pensar algo ou ouvir falar de guerra, para que uma pequena “faísca” nos ocorra na mona, e aquilo que parecia estar esquecido para sempre, surja do nada.

Neste caso, bastou ter ido visitar o renovado Museu da Guerra Colonial de Vila Nova de Famalicão, ouvir e olhar umas fotos para me lembrar de mais estas peripécias que contarei a seguir.

Nesta minha visita, tive a sorte de me incorporar num grupo desconhecido, de “turistas”.

Logo à entrada, deu para perceber pelo cambalear, que o “cicerone do museu” era um dos muitos Deficientes das Forças Armadas. Mas isso não o impediu, de ser uma pessoa simpática, bem-disposta e extrovertida. Perguntou aos recém-chegados se existiam ex-combatentes de guerra, e no meio de um autocarro de homens e mulheres, uns muito mais novos e outros, pouco mais velhos que Eu, descobriu-se que além de mim, existiam mais dois “no grupo”.

Além do Senhor do museu, também Eu ia esclarecendo alguns curiosos, acerca do que se ia vendo e lendo. A certa altura “entre as rações de combate, pernas artificiais, cantil, mochilas etc”, o anfitrião falou, nos produtos de higiene utilizados no dia-a-dia das nossas tropas. No seguimento perguntou se alguém sabia o nome “e para o que servia”, duma pequenina bisnaga que sobressaia em cima de um bilhete de identidade militar. Todos olharam a coisa insignificante, e ficaram na expectativa da resposta. Certo: tu que a utilizas-te já sabes do que se trata. ….Mas, continuando: Em vez de esclarecer, deixou para os ex-militares a resposta.

As pessoas intrigadas com os nossos sorrisos “Elas, muito mais” olharam para nós, e os camaradas inibidos, nada esclareceram. Depois viraram-se para mim e tive de ser Eu a dizer que a bisnaguinha nada tinha de especial, e se tratava sómente de um espermicida. Há pergunta delas, “como se utilizava”. Tive de resumir, mas pelos vistos ficaram esclarecidas.

(É muito ingrato, isto de dar explicações ao vivo e ao sexo feminino, sobre estas matérias)
Como ex-desenhador, era muito mais fácil para mim, ter feito um desenho…

Continuando:

Reparas com certeza, que nada do que tenho escrito, foi antecipadamente pensado ou estruturado.


Mas pelo contrário, tenho verificado ao longo dos anos, que existem guerrilheiros com estórias mirabolantes, precisas e "verdadeiras" de muitos (internos do arame farpado, ou mangas de alpaca) que nas raras saídas do bem bom, “quais repórteres de guerra”, parece que já iam de máquina fotográfica a tiracolo, prontos para bater a chapa, no local e na hora exacta. É vê-los, olhando o passarinho e ostentando uma G3, numa pose hollywoodesca, sorridentes e despreocupados. Enquanto que Nós os operacionais, “fartos dessa arma até à ponta dos cabelos, que já nem a podiamos ver”, alombavamos com ela a toda a hora, bem como ainda, todo o material bélico, correndo riscos constantes, fazendo escoltas, operações diversas, quase todas no mato e “à lá páte” de 4 ou 5 dias e por vezes mais, procurando afastar os “turras” do arame, ou arranjando sarna para nos coçar. ...Mas afinal, malacomparado, ...descubro que dormi o tempo todo.


Parece que só eles é fizeram a guerra, e até acho que é verdade!...
Pois, além de não constar na lista das Condecorações e Louvores do Batalhão,
pelos vistos e ao contrário de muitos, além da minha obrigação nada fiz de transcendente, e é bem verdade

por isso Procurei procurei...talvez...farejei, faregei
E descobri que fotográficamente falando, quase nada possuo para exibir,
que testemunhe tudo aquilo que tenho escrito.

O Meu Camarada de pelotão Furriel Brito, nada pode testemunhar, pois está desde que terminou a nossa guerra, nos Estados Unidos da América, e pelos vistos tentando ou mesmo até já esqueceu, todas as suas lembranças.
- Fotografias que justifique Eu ter sido atirador, onde ostensivamente segure a minha G3 que sempre me acompanhou, “Não tenho nenhuma”.
- Fotografias que justifique Eu ter tirado o Curso de Minas e Armadilhas, mesmo um reles detonador eléctrico ou pirotécnico que tantos escurvei, transportei, armei e rebentei “Não tenho nenhuma”.
- Fotografias das Minas, que carreguei em mãos, que montei ou desmontei, (todas elas verdadeiras, completas ou ás peças) que usei no dia a dia, e até quando dei aulas num curso de Minas e Armadilhas no Agrupamento de Engenharia de Luanda, e que serviram de material didáctico,  depois..estouradas, “Não tenho nenhuma”.
- Fotografias dos explosivos TNT, dos plásticos, do 808 e afins... “Não tenho nenhuma”.
- Fotografias Montado ou a segurar os cornos do animal, de outras ou daquela vez que matamos 6 Gnus "boi cavalo" para abastecermos a nossa companhia e a CCS, ...tirei fotos para alguns camaradas, mas pramim "Não tenho nenhuma".
- Fotografias de tantas fotografias, a Preto e Branco, tiradas pelo Sargento Larcher, que entretanto colori  ao quase todo pessoal da minha Companhia  e não só... "Não tenho nenhuma".

Porra, assim é demais. Embora também andasse muitas vezes armado de máquina fotográfica, nunca valorizei essas coisas, por serem tão banais. Sou um fraco paparazzi.
Mas, ESQUECE...volto já seguir.