terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

NOVA DESCOBERTA

UMA NOVA DESCOBERTA

Falando ao telefone com o recém-chegado ao blogue ex-Furriel António Vilela, fiquei esclarecido em diversos pontos tais como: o pessoal que reforçou o nosso Batalhão teria sido a Companhia de Caçadores 1782, mais um Pelotão da Companhia 1781 do qual Ele fazia parte. Falamos de coisas diversas até que Eu lhe disse que me lembrava de um tal Chichorro pintor, ao que me respondeu:

O Chichorro?!... Era um colega de pelotão.

Nem de propósito. Acabo de encontrar o Furriel Chichorro. Confesso que por diversas vezes o procurei tanto na internet como em algumas exposições de pintura a que entretanto tenho ido, mas nada feito.

Infelizmente convivemos muito pouco tempo, já que estavam no final da comissão de regresso ao puto.

Nós, Maçaricos   Eles, Vê cê cês.

Desde logo me impressionou, a sua habilidade de segurar o pincel. Talvez por Eu ter formação de desenho “mesmo que técnico” gostava de o observar fazendo as suas pinturas.

E não era só Eu. O furriel Giga da minha companhia, (que hoje em dia faz da pintura, complemento da sua reforma) também gostava, e o apreciava.
+ + +
Era fácil encontrar o Chichorro. Na altura estava a executar uma encomenda especial. Especial porque pintava um painel para o nosso Comandante, que tinha adquirido para esse feito, uma enorme placa de platex ou similar.

Recordo-me que o tema escolhido tinha a ver com Africa, com a vida numa sanzala. Viam-se diversas figuras indígenas ao lado das suas palhotas. Elas de trouxa à cabeça e putos às costas, e em destaque, uma criança na rua brincando com um aro “talvez de bicicleta”. A existir um black “que não recordo” estaria concerteza sentado sem fazer a ponta dum corno. O sol não se via, mas descobria-mos a sua existência pelas sombras das figuras projectadas no chão, nomeadamente a do aro.

***   ***
Para não quebrar a concentração “quem sabe até, a inspiração” abeirávamo-nos silenciosamente do Chichorro e “pela calada” apreciávamos a sua habilidade. Confessou-nos que não queria que o Comandante visse a evolução do quadro, mas sabíamos que “nas suas costas” o Comandante ia dando uma espreitadela.

Sabendo-se a quem se destinava tal pintura, muitos de nós “combinados” brincávamos com Ele.
Aparecia sempre alguém que “dizendo-se entendido” tentava convence-lo que algo de errado existia. A proporção das figuras até as sombras, eram alvo de crítica destrutiva.

Para todos “ou quase” o quadro estava cada vez estava mais bonito e próximo do seu final. Mas Ele era exigente e quando menos se esperava, víamos o Chichorro de espátula em punho, a raspar com vigor uma parte das figuras.
A coisa para si, tinha que ficar muito melhor.

Era um brincalhão sui generis. Com uma grade vazia para se sentar e sempre duas garrafas de cerveja ao seu lado; Uma, a fresquinha, para beber (revezada amiudadas vezes). Outra, com um líquido próprio para limpar os pincéis, e assim passava horas, dedicado à sua empreitada.

Tanto Eu como o Giga, ríamos quando o Chichorro olhava a evolução do seu trabalho, por um angulo para nós desconhecido. Interrompia a pintura, olhava-a de frente e de costas, aproximava-se e afastava-se, inclinava a cabeça para a esquerda e direita, e não contente, virava-se de costas para a tela, baixava o tronco como se fosse para chegar com as mãos aos pés, e acabava por meter a cabeça no meio das pernas olhando-a, permanecendo assim alguns segundos. Fazia isso diversas vezes, quase sempre quando pensava que ninguém estava a assistir. Os de maior confiança avisavam-no que era assim que a Alemanha perdeu a guerra.

Eu não achava tanta graça quando Esses aproveitando uma distracção, lhe trocavam de propósito a posição das garrafas. Notava-se que tal brincadeira não lhe era estranha, pois quase sempre antes de beber cheirava a garrafa. Entretanto, absorto no trabalho, era só aguardar mais um pouco para o ver cuspir ao ter dado “ou quase” um gole de aguarrás, diluente ou algo parecido.
*****
Uma altura surpreendeu toda malta, porque talvez influenciado pela crítica ou pelo seu perfeccionismo, após corrigir diversas vezes a grande pintura que não lhe corria tão bem, acabou por “serrar a tela” aproveitando somente uma parte. Resumiu-se assim aquele enorme quadro, (horizontal) a uma pequena tira (vertical) que no seu dizer “e no nosso” estava impecável. Não sei agora (46 anos depois) se este episódio aconteceu na tal pintura do Comandante. Escusado será dizer, que terá começado tudo de novo.


Mas não recordo este amigo só pelas suas pinturas, riscos e gatafunhos.
(Era danado p’ra brincadeira)

Recordo-o também por aquilo que um dia me confessou, o que “na altura”, era o seu maior dilema.

…Reparei certa tarde que o Chichorro interrompia demasiadas vezes as pinceladas, abrindo a boca. Notei que estaria com “uma over-dose” de sono e quase certo da resposta, falei-lhe: não digas mais, não foste à cama. Piraste-te do quartel e esta noite fizeste uma directa. Ao que respondeu: Errado.

Confessou-me então com um ar circunspecto, que o seu grande problema era nem mais nem menos do que:
O que plantar naquelas “leirazitas” nas margens de um pequeno riacho
 existente nos terrenos da sua namorada, futura Esposa. No seu dizer, já somava várias noites em claro assolado com tal pensamento.

Pela descrição, o terreno era bastante estreito no entanto de comprimento razoável. O problema nada tinha a ver com a área mas sim com o piso. Por ser mesmo ao lado da água, estava quase sempre encharcado porque tinha o nível freático muito elevado “ideal para o cultivo de arroz” mas um maldito declive, bastante acentuado.
Por causa disso, tornava-se assim inviável essa plantação que vinha mesmo a calhar por ter pouca mão d’obra. Não queria ser um escravo da terra nem estar constantemente a deslocar-se ao dito terreno que se situava na extrema da propriedade.

Eis então o dilema:
Ou esquecia a sua existência “o que era difícil” ou começava já a pensar na reconversão. A terraplanagem ou agriões, estavam fora de hipótese. A comissão estava no fim, e tinha pouco tempo para tomar a decisão pois o casamento estava próximo.


Ao sabermos que estes Camaradas regressaram da zona de São Salvador,
instintivamente toda a minha Companhia os recebeu de braços abertos.

Não por aplicar o lema do nosso Batalhão “Conquistando os corações se vence a luta” mas porque à partida se criou desde logo uma grande empatia, já que não há muito tempo o nome 
“São Salvador do Congo” ficara gravado na nossa memória.

Luanda, Cacuáco, Tentativa, Ambrizete, Tomboco, “o morro de Santa Maria parecendo um navio”, São Salvador do Congo etc, eram nomes muito recentes, graças àquilo que considerávamos ser o nosso baptismo de guerra. Tínhamos só cinco dias de Angola, quando a minha Companhia foi escalada para fazer a escolta a um MVL (Movimento de Viaturas Logísticas) a São Salvador com 164 viaturas civis.

Uma escolta que não começou lá muito bem, pois logo à partida “ainda no asfalto” o ultimo Unimog se despistou voltando-se, originando alguns feridos e a perda do carro. A partir daí, as peripécias “algumas já aqui descritas no blogue” a tensão nervosa, o capim, o raio do meu Unimog que era o penúltimo e por via do acidente se tornou no último, e quando por algum motivo “ia abaixo” insistia em não pegar, e tal como esse castelo branco… só pegava de empurrão.

Correndo o risco de me repetir, recordo que alguém me disse, que os chefes dos turras tinham por norma dar um primeiro tiro de pistola seguindo-se o ataque em força. Por via disso e até me habituar, fartei-me de ouvir esse tiro de aviso e o coração quase parava. Mas afinal eram pequenas pedras que por vezes se entalavam no rasto dos pneus e batiam nos guarda-lamas.

Caro Chichorro:
Se um dia leres estas minhas lembranças, espero que as subscrevas, pois delas estou convicto.


Procurei na net e descobri esta história:

(Os militares e os animais)
Já por aqui aflorámos em vários posts a amizade que regra geral, em África, ligava os animais e os militares em campanha. Sobretudo os Cães.

O Cão é o melhor amigo do homem, e era bem verdade, que os militares seguiam à letra esse princípio.

Vamos respigar ao livro Angola – As Brumas do Mato, do Alf. Milº Capelão Leal Fernandes, do BCaç 1930, uma “estória” enternecedora de amizade para com um Cão, retratado e comentado pelo lápis desse consagrado artista plástico, de nome Heitor Chichorro, na altura Fur. Milº da CCaç 1781, uma das Compªs pertencente ao BCaç 1930, sediado na Mamarosa.

No tempo do BCaç 1930, a CCaç 1781, que terá estado no Luvo e a seguir na Canga, andariam pelos quartéis muitos cães. Porém ainda no Luvo, um deles foi-se aproximando dos Fur. Milºs, e um destes adoptou-o, dizendo, este tem perfil de Sargento.

Ficou a chamar-se Mondego e criou uma tal afeição com o Fur. Milº Mota, que o passou a seguir para tudo quanto era sítio. Chichorro, já um artista, passa então a lápis para o papel, várias caricaturas do Mondego, que completa com palavras reveladoras da grande afeição, que aquele núcleo de militares passou a ter com aquele cão. Nomeadamente “ meu amigo e companheiro Mondego”, “ para o grande amigo Mondego – esteja onde estiver”, “este animal não devia ser considerado cão”, “era extraterrestre – Mondego, cão humano”, enfim frases, com algum sentido de humor, mas ao mesmo tempo reveladoras de uma enorme afeição pelo Mondego.

A CCaç 1781 rodou entretanto para a Canga e o Mondego, claro, rodou também. O Cão inteligentemente, foi apreendendo aquilo que o Fur. Milº Mota, lhe ensinava: a dar a pata, a fazer continência, a guardar a caserna onde dormiam, inclusive obedecendo à ordem de ir passar ronda aos postos de vigilância, sozinho, rosnando quando apanhava alguma sentinela a passar pelas brasas.

A Comissão entretanto aproximava-se do fim e o Mondego, como que sentindo que os seus amigos estavam prestes a partir, com tanta agitação à sua volta, começou a dar sinais de alguma tristeza, como que perdido no granel que á sua volta se desenrolava.

Chegado o dia da partida, já com as Volvos que tinham transportado os seus substitutos, preparadas para de novo se fazerem à picada e trazer a CCaç 1781 para Luanda, os militares começam a despedir-se do Mondego. Um motorista civil de uma das Volvos ao ver o cão a obedecer às ordens que lhe davam, não se conteve : eu compro este cão. Quanto quer por ele?

E o Fur. Milº Mota, um militar endurecido por uma Comissão que não fora fácil, ali nada era fácil, percebe que encontrou o homem certo, que gosta de animais e trataria bem o seu amigo.

Não lho vendo! Dou-lho. Levamo-lo para Luanda e aí fica para si. Mondego salta para a Volvo, e diz quem viu, que os seus olhos, o seu rabo de novo enrolado, diziam o que ia dentro de si.

Porque o Mondego, era um Cão obediente, e um fica aí, era cumprido, assim como quando se aninhava em pleno mato na tenda do seu dono e se mantinha silencioso, mas de olhar vigilante. Ou quando o dono o deixava ficar no quartel, e no regresso era saudado com saltos no ar de alegria e o dono pendurava-lhe o cinturão com as cartucheiras, e o Mondego transportava-as até à caserna.

Quando o dono entendia levá-lo em operações, ajustavam-lhe uns óculos, para que se não ferisse no capim. Empatia total era o que caracterizava aquela relação militar – cão.

O Fur. Milº Mota, coloca o saco na Volvo e Mondego de novo com porte altivo, embora a Volvo fosse mais alta que o Unimog, salta ligeiro e monta guarda ao saco do seu dono na viagem até Luanda.

Na Volvo para a qual saltara, o Mondego contemplava aquele entusiasmo louco da partida, despedindo-se também ele do mato, com ar alegre e agitando a cauda. Também para ele era o fim da comissão.
E o seu dono, o Fur. Milº Mota remata nostálgico: “ o Mondego devia ser o militar mais antigo do norte de Angola. Já lá estava quando nós chegámos. Fez várias comissões. Sem dúvida mereceria uma alta patente de oficial.
E o Fur. Milº Heitor Chichorro com a sua fina sensibilidade de artista e de sábia admiração à mãe natureza e suas criaturas, diria: O Mondego era um cão medalhado. Ele bem merecia uma cruz de guerra.
E de olhos na distância, em recordações de momentos, linhas e cores: Era um cão mas sempre o considerei um bom amigo!.. Uma espécie de extraterrestre que nos ajudou a passar a vida no mato e nos deu muita sorte!...

Entre as págs 277 e 290 do livro citado, vem esta e outras recordações de tocante singeleza, que achei por bem para aqui trazer. Ao autor do livro, e ao consagrado artista plástico Heitor Chichorro, um bem hajam pelas recordações que para aqui trouxeram, prova de que a vida no mato em África, muitas vezes com a vida em situações limite, endurecia o corpo, mas não o espírito.

Homenagem a Título Póstumo  do Chichorro ao Cachorro

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Se vens por bem, podes entrar. Melhor dizendo: VIESTE POR BEM, PUDESTE ENTRAR

Caro Leitor

Na nossa última postagem referimos como
A primeira boa notícia do ano,
a descoberta de um novo Camarada que “embora por pouco tempo”, connosco conviveu.
++++
Dado que o nosso Blogue existe desde 21/03/2012 e só agora nos contactou, achamos que devia ser punido por isso*.

Trata-se do Ex.Furriel António Pinto Vilela, da Companhia de Caçadores 1781 do Batalhão 1930.


Escreveu-nos dizendo: Eu sou um dos Furriéis que foram reforçar o vosso Batalhão.
Fomos da Canga para a rede, e intervenção. O Campos já era careca, ou melhor, tinha pouco cabelo!
+ + +

Fomos os dois de Fiat 600 até às Quedas do Duque de Bragança, Malange, Salazar, Nova-Lisboa Tenho uma ou outra fotografia juntos.

Ei-las
Não sou o `Morto Vivo ´, nem o tal José Lourenço da Silva. Sou o António Vilela, do Bat. de Caç. 1930, que estivemos no Grafanil. Sou no grupo da foto o de calção e chapéu na cabeça. E quem são alguns dos vossos? Uns são do meu Batalhão que conheço. Creio que um é o Medroa.

Pelo fardamento exibido, deduz-se que estavam de partida para uma missão arriscada


“Se souberes esclarece”

Que Eu tenha a certeza, confirmo que ao fundo está “de toalha às riscas e ao ombro” e ainda de chapeuzinho azul na cabeça, o Agostinho Medroa da CCS. À frente de camisa branca e calção preto “olhando para o passarinho e de penso na perna” está o nosso saudoso Furriel Mecânico, Carlos Alberto M. Carvalho da 2504. Reconheço mais um ou dois, mas não tenho a certeza do nome.
Quanto ao tal Lourenço "escreve o Vilela" esteve com vocês fora de Luanda, como mostra na vossa fotografia.

Eu só estive no Grafanil. Mas também fiz uma coluna a Nambuangongo, levar munições. Mas creio que foi entre outros, o pessoal do Alf. Costa. Que deu uma noite de S. João. Mas isso é outra história, que outro dia contarei. Um abraço. A. Vilela.
E agora
a história, que entretanto nos recordou.


Estas 3 páginas fazem parte do livro do meu Batalhão, e relatam pequenos episódios que passaram por nós. Será que algum de vocês se lembra disto? Eu estava lá. Se a memória não me atraiçoa, também foi o grupo do Alferes Costa. E por conseguinte o Pimenta também foi. Tenho algum material que faz parte do meu acervo. Se vires conveniência, te mandarei algumas interessantes.


Sim, lembro-me bem desse episódio

Constava-se que: 
Na altura, decorria no Morro dos Veados umas filmagens, cuja artista principal era a Romy Schneider. Dado que o Morro dos Veados era em Belas a mais de 20 Km do centro da cidade, “por uma questão de segurança” tornava-se necessário a protecção do pessoal.

Por se tratar de uma operação invulgar não rotineira, teríamos sido escolhidos pelas altas instâncias, para termos a “honra” de levar a cabo tal operação, somando também a possibilidade de alguns poderem vir a ser protagonistas do filme. Uma possibilidade muito especial e para tal aceitavam-se voluntários.

O resultado de tal operação pode ser lido "em resumo"  na primeira destas três páginas, que o Vilela nos enviou.




Tem graça que não há muito tempo, procurei para colocar numa das paredes do meu
BAIXATOLA CINE a foto dessa artista de cinema interveniente na história, que desde este episódio, jamais esqueci.

Uma peripécia tão marcante, que mereceu tal destaque.


Que me recorde, penso que aquela encenação existiu por culpa da famosa Mata-Hari.

Uma espiã dupla da 1ª guerra mundial, que “segundo a história” obtinha e trocava informações entre Alemanha/França e vice-versa quando estava “enrolada” na cama fazendo sexo com os oficiais. Foi fuzilada pelos franceses no dia do meu aniversário “15 de Outubro” mas de 1917.
***
Por se tratar de uma operação de grande envergadura pensada com alguma antecedência e para que os nossos militares não fizessem o mesmo nas suas visitas ao B. O. (Bairro Operário) e afins, usou-se este estratagema para que a operação fosse como foi “um êxito”.

Acontecimento igual ao relatado nas restantes folhas enviadas, passou-se “quase a papel químico”, no dia da nossa chegada ao Dange.
Aí permanecemos algum tempo, onde aconteceram diversas peripécias, algumas já aqui relatadas.