segunda-feira, 21 de abril de 2014

A respeito das MADRINHAS DE GUERRA



A meio da comissão, resolvi fazer uma surpresa.
Comprei uma passagem de avião e viajei para a metrópole.


Além dos meus Pais, também os meus amigos ficaram felizes. Quase de imediato fiquei a saber as boas novas, e constatei que para o meu amigo Zeca, as novas não eram boas.

No dia seguinte conforme combinado, apareceu após o almoço de “peito aberto” munido de uma garrafa de Conhaque Pedro Domec pronto a confessar-me tudo o que lhe ia na alma. Para não lhe ficar atrás, comprei um enorme cartucho de amendoins, vulgo “ervilhanas, alcagoitas, peanuts, ginguba e não só”, e percorremos a pé debaixo de um sol abrasador, a recta de 1 Km que interliga a estação de NINE (Braga) ao cruzamento de Viatodos (Barcelos).
Durante o trajecto, inteirei-me da gravidade da situação e solidários na dor, íamos comendo e bebendo. Confessou que umas semanas antes, tinha feito mal, à namorada. Apesar de gostar muito dela, não devia ter feito, o que fez. E pelos vistos, foi tiro e queda.

Concluímos pois, que (além da garrafa estar vazia), contra factos não há argumentos. Ao contrário da impunidade de hoje…
“tinha de reparar o erro”

Conclusão: encontrei o Zeca quase dois anos depois, já casado, em frente ao balcão de uma tasca, brincando e incentivando o seu pequeno filhote que pegava ao colo e que mal tagarelava, a beber uma pinga de vinho encostando-lhe o copo aos lábios.
Quem diria, que o puto que à pergunta: onde está o teu pai? Respondia - Foi pós cópus, e a tua mãe?  a Mãe foi pós cópus, e assim sucessivamente, tem hoje um curso superior.



Entretanto, soube que afinal não era só Eu que estava de férias. Também o Abílio que cumpria o serviço militar na Guiné, gozava as suas.

Este, fora incumbido para uma agradável missão. Encontrar-se com uma costureirinha, a MADRINHA DE GUERRA de um seu camarada, que ‘sem dinheiro’ não pôde vir à metrópole passar as férias. Graças a esse impedimento, deu azo a esta “história”.

ERA UMA VEZ...

O Abílio, que conduzia “à revelia” um dos carros do seu irmão mais velho, um Mini Cooper cuja bicha do conta-quilómetros foi previamente desligada, a Minha Pessoa, o Agostinho Brasileiro, e o Zeca do serAmadeu (este Zeca é outro). Escusado será dizer, que "de momento" estes 4 mancebos à vara larga, tinham todas as condições de que precisavam para serem felizes.


O atellier onde a tal MADRINHA DE GUERRA trabalhava, situava-se nos arredores de Sintra,
e para lá nos dirigimos.

Partimos de NINE de madrugada, com alguns cobres no bolso. Durante toda a viagem, falamos, rimos e cantamos ao som de um moderno auto-rádio que equipava a viatura. Era uma aquisição recente do dono, pois ainda há pouco tempo tinha em reles rádio com leitor de cartuchos. Agora possuía este e com leitor de cassetes.

Chegados a Sintra por volta das 13 horas, decidimos fazer uma estravagância. Ir almoçar ao restaurante
de um lindo hotel com vista para o mar.

Safamo-nos da 1ª parte de guerra, será que sairemos da 2ª com vida?

À chegada, fomos convidados a largar o carro. O mesmo foi levado por um funcionário do hotel, e rapidamente desapareceram da nossa vista.

Apreensivos “não será que o gajo era um ladrão fardado?” entramos no restaurante e só por vergonha não saímos logo após.

Os pratos quase todos de marisco, com preços enormes na lista, ultrapassavam de longe as piores espectativas.

É fácil de concluir, que escolhemos os mais baratos. O meu foi nem mais nem menos, que pombo bravo estufado com cebolinhas. Enquanto esperávamos puxei de um cigarro e cada vez que ia pondo a cinza no cinzeiro, surgia do nada um empregado que rapidamente o substituía por outro “obviamente” limpo. Achamos graça ao ver tanta eficácia, e todo o mundo "para rir" começou a fumar. Entretanto, imaginamos o nosso dinheirinho a voar.

Após o almoço, com tudo pago e sem vontade de rir, chegou a hora de nos empenharmos na missão que nos levou a ir tão longe. Sem GPS, depois de darmos voltas e mais voltas, acabamos por finalmente encontrar a casa.

Descobrimos que a Madrinha já contava com a visita do amigo do seu afilhado, só não sabia quando. Era certo pois, que um aerograma qualquer nos tinha ultrapassado.
Sem demoras convidaram-nos a entrar naquele acolhedor salão de costura. E de imediato fomos confrontados com “a malandrice intrínseca das costureirinhas”.

Muito curiosas, enquanto que o Abílio contava as peripécias da sua guerra na Guiné, Eu contava as minhas de Angola. O Zeca e o Agostinho, eram meros espectadores ouvindo apreensivos, pois ainda não sabiam o seu futuro militar.


A Madrinha já refeita da surpresa, agarrou à pressa qualquer coisa que não identificamos, e pediu licença para se ausentar. A seguir, reparamos algo estranho no comportamento das restantes. Pareceu-nos que as Costureiras/Modistas “não entendo do assunto” evitavam o silêncio. Aumentaram até o som do rádio, e queriam a todo o custo conversar.

Mas afinal, a conversa era outra. Pelos vistos, a “MADRINHA DE GUERRA” que não recordo o nome, já prevenida, entrou para o WC e não queriam que a ouvisse-mos, não porque andasse mal dos intestinos, mas porque levou um gravador de cassetes e estava a gravar uma mensagem para o seu querido afilhado.

Largos minutos após “talvez mais de meia hora”, a costureirinha regressou toda rosada trazendo nas mãos o tal gravador. Uns minutos depois, era entregue ao fiel depositário um embrulhinho com a cassete dentro, ornamentado com fitinhas de seda e um lacinho cor-de-rosa, com a recomendação de que se tratava de algo valioso a ser entregue ao próprio, por mão própria.
Ao que o Abílio garantiu: Podes ficar descansada que o mesmo será entregue.

Mesmo sem vontade nenhuma, tivemos de dar o fóra pois o “tempo ruge”. Depois de uns beijinhos de despedida, heis-nos de regresso. Sem Auto-Estradas "ainda não tinham sido inventadas", tínhamos ainda para percorrer os cerca de 400 Km até NINE.

Com pouco mais de 20 anos de idade, cheios de testosterona, alguns endereços anotados e a promessa de troca de correspondência, estávamos agora “cómodamente” sentados a bordo do Mini, comentando as beldades que deixamos para trás, boas comómilho.

A viagem decorria sem incidentes, mas às vezes monótona. Para alegrar, intervalados com anedotas, ouvia-mos António Mafra, Nelson Ned, o Roberto Carlos e muitos outros. Cantávamos alto e bom som, no entanto, tudo tem limites. A música já enjoava, pois era repetida demasiadas vezes.

O remédio era “de longe a longe” falar-se delas “potenciais madrinhas também” cuja beleza não ficavam atrás da do embrulho, que tanto andou de mão em mão. Depois de admirado, concluía-se que só alguém com bom gosto e especialista em alta costura, seria capaz de fazer tal obra de arte.

Era proibido dormir, e após mais um indesejado silêncio alguém sugeriu:
e se ouvisse-mos a cassete?
É pá, isso não. Isso não se faz.

Resultado! Foi preciso ameaçar, para que fosse guardada. Corria-se o risco de o som da cassete ficar imperceptível por desgaste, pois já se notavam uns ruídos estranhos de tanto ser reproduzida.

Escusado será dizer que ficamos “escandalizados com as confissões da Madrinha"
e qualquer semelhança do novo ‘embrulho’ com o anterior, era pura coincidência.

Assim terminou a odisseia de 4 amigos. O carro agora limpo e coberto com a capa, estava arrumadinho na garagem e com a bicha do conta-quilómetros já ligada (isto de ter formação mecânica, às vezes dá jeito), descansando até uma próxima. Apesar de ter andado mais de 800 Km, nada ficou registado.

Mais tarde, soube do orgulho que irmão sentiu, quando foi buscar o carro e reparou no conta-quilómetros. Aleluia, o Abílio “contra o seu costume” finalmente tinha cumprido a proibição de usar a viatura.

Esta é uma “história”, de que não me orgulho muito da qual fiz parte, e que recordei após Postar o artigo que colhi numa revista famalicense, com o nome:
Combatentes e 'madrinhas de guerra' trocavam cartas 'de fazer corar'

Infelizmente, alguns dos protagonistas já não podem testemunhar,
pois mais de 40 anos se passaram
 e a vida "ou a morte" é como o Django.
(Não perdoa).
Mini semelhante ao da história

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