quarta-feira, 23 de julho de 2014

Divagando.... se vai ao longe ( 1/3 )

CAMARADAS:
também Me acho no direito, de fazer “esporádicamente” umas manobras de diversão
Resposta prometida, àquele grupo do “rodízio de peixe” que encontrei em Setúbal.

Uma vez mais obrigado pelo convite. Nunca pensei que um grupo tão jovem, visse o Blogue da 2504 e estivesse tão bem informado acerca da ”Guerra do Ultramar”. Aconselho-vos no entanto, que a empanturrarem-se dessa maneira, não irão muito longe.

Como vos disse: Acho preferível ter o Blogue “parado”, a postar coisas dos outros ou “estórias da carochinha” cuja credibilidade possam ser postas em causa, de pessoas que não se conhece.

 Nesse caso, e como sei que “felizmente” já vivi situações diversas, sempre que se proporcione posso aqui escrever verdades minhas “que podem ser retiradas a qualquer momento do blogue” que pense não fugir muito, aos temas aqui expostos. Com boa vontade as que seguem, podem ser englobadas nos temas:  explosivos, e transmissões.

Tudo isto, enquanto aguardo histórias prometidas, dos Camaradas da Minha Companhia

Por ser filho de um Guarda-fios da CP, o que não faltavam lá por casa, eram fios de telefones, grande quantidade de rolos de arame, alicates de diversos feitios, etc, e não só.

Desde muito cedo, foram tais utensílios e ferramentas, que despertaram o Meu interesse
pela “bricolage”
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Quando a luz eléctrica faltava sem motivo aparente, o meu Pai conhecedor do meu silêncio e dos meus hobbys, detectava sem esforço a minha presença em casa. “Adivinhando o sucedido”, falava alto e bom som para que Eu lá no quarto, ouvisse o “raspanete”: …e ”um dia, hás-de acabar electrocutado se continuas a brincar assim”. Nesse dia, ou melhor, nessa noite, além do “pirolito” que até me fez estremecer, desequilibrei-me e desabei da cadeira abaixo, acabando por ficar às escuras.


Após arranjar os fusíveis, subiu de imediato as escadas para se inteirar do barulho, e encontrou-me ainda às escuras, meio abananado. Descobriu que, o candeeiro do tecto tinha “naquele momento” somente uma lâmpada e mesmo essa, estava apagada. Fora ela, a causadora do incidente, porque o curto-circuito acabou de a fundir quando tentei desenrosca-la. Ficou ainda a saber que as “colegas”, jaziam há uns dias partidas, dentro de uma velha caixa de sapatos.


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Ignorando que na minha vida profissional também seria um Desenhador, já na Primária gostava muito de rabiscar. Os meus Pais entretanto, achando-lhes graça e orgulhosos do filho, chamavam-lhe desenhos. Assim sendo: Eu já desenhava em papel transparente, nas tiras que cortava do papel vegetal que a minha Mãe usava quando fazia doces, principalmente a marmelada. Já possuía pois, uma razoável série de bonecos aos quadradinhos, e por isso até, já tinha construído uma pequena “máquina de cinema”. Faltava só, arranjar a lente para projectar na parede.
Ora nada mais fácil, que retirar o casquilho e o filamento a uma lâmpada e enche-la com água, para dar um efeito capaz. Resultado: além de alguns pequenos cortes nas mãos, a coisa estava difícil, pois era necessário fazer diversas tentativas para obter um resultado satisfatório.
 
Procurava por todos os meios ficar sozinho, pois queria fazer a surpresa aos meus irmãos. Mas estar só era perigoso e difícil. Evitavam-no, porque tanto o mais Novo como o mais Velho, nunca foram grandes entusiastas das minhas brincadeiras e chateavam-me o juízo por “acharem” que andava a arriscar muito e que era uma perda de tempo.

Mas estavam enganados, pois ainda hoje recordo “antes mesmo de aparecer a televisão” o gozo que me dava, quando no silêncio da noite e de bruços na cama, via os meus pequenos filmes ampliados na parede, projectados a largos centímetros de distância. Eram quase todos a cores, pois já os ia colorindo cuidadosamente, com lápis de côr e aguarelas. Era uma operação difícil porque o papel vegetal “encarquilhava” com muita facilidade. Aplicava então “tal como se fazia com as pétalas das flores, que as namoradas nos ofereciam” a técnica de as prensar até secarem, no interior das folhas de um velho jornal.

Já mais adulto, na Escola Secundária, mesmo frequentando um curso Industrial virado para a mecânica, continuava entusiasta da electricidade. Aplicado nos estudos o quanto baste, recordo o dia em que o meu Pai “estranhando o meu comportamento” me dizia: é pá, a estudares tanto assim, deves andar muito doente.

Mal sabia Ele, que o Professor Paulo, meu professor das disciplinas de Tecnologia, Orçamentos e Contas d’Obra, de Desenho de Máquinas e Esquemático, e ainda da disciplina de Electricidade, tinha prometido oferecer “como era seu hábito, para incentivar os estudos” um novo prémio. À pála disso, já tinha ganho uma lapiseira Caran d’ache e aquela que foi a minha primeira Régua de Cálculo. Estas, encontram-se agora expostas no meu museu. O museu do BAIXATOLA’s BAR em Vila Nova de Famalicão.

Ando ansioso por encontrar   o "agora velhinho" Professor Paulo Dias Costa, para ver se ainda se recorda desta relíquia. Com escalas na frente e verso como todas, fora uma oferta da AEG, que há mais de 50 anos ganhei e ainda guardo, com todo gosto. De plástico e cartão prensado, fartei-me de a utilizar, e se comparada com uma “científica” da Ariston que também possuo, mais parece uma amostra sem valor.

Só que desta vez o novo prémio, era para mim, um “Grande Prémio”, e não o podia perder.
 Uma GALENA 

Resultado, estava agora a braços com um grave problema: o de retirar o fulminante de um cartucho “novo” de espingarda, que um caçador me ofereceu. Podia ter-me oferecido um usado, mas só se fosse no  fim-de-semana próximo. Como Eu não quis esperar, e embora fosse fácil, não o “estourou” para não alertar a vizinhança àquela hora tardia em que lhe fui pedir. Ofereceu-mo mesmo assim, com alguma relutância, porque lhe menti garantindo que não seria Eu quem ia executar a delicada operação.

Com os meus 13/14 anos de idade, retirei com cuidado, a bucha, os chumbos a pólvora, faltando agora o fulminante. Escusado será dizer que tanto o Caçador como os meus Pais, desconheceram todas estas operações “suicidas”.

E tudo porquê: Porque o autor do livro onde tinha na capa o Esquema da galena que ganhei, a páginas tantas sugeria que para se construir a bobina das ondas médias e curtas, podia ser utilizado como núcleo, um cartucho “usado” preso na vertical, de uma espingarda calibre 12. Então, pensando num estratagema “seguro”, muni-me de prego e martelo, e com todo o cuidado, arranjei maneira de o percutir, e retirar. Era nesse buraco, que o autor sugeria onde meter, o parafuso que o fixava ao “chassis”. 
 
Ainda mal recomposto da “surra” recebida, graças à nova descoberta de fazedor de navalhas*, uma vez mais o meu Pai ralhava, ao ver-me pendurado no alto de um eucalipto “que existia do outro lado da via-férrea em frente da minha casa”, pedindo ao meu irmão mais novo (Carlos), para me ajudar a esticar um arame à volta dos isoladores de porcelana, e que se destinava a fazer de Antena do ar, tipo Dipolo. Para fazer a Antena da Terra, bastava ligar outro arame a uma estaca metálica espetada no chão. Sugeria de novo o autor, que para essa estaca fazer melhor efeito, o ideal seria estar enferrujada. Então juntos, “Eu e o meu Irmão” decidimos dar uma valente “mijadela” para acelerar o processo. Mas como estava em pulgas para ver o resultado final, não quis esperar que os “glutões” corroessem o metal. Embora menos eficaz, decidi ligar a antena a um cano da água enquanto que o anterior não estivesse a 100%.
Tinha finalmente tudo o que era necessário, faltava só a montagem.

* Com respeito às navalhas, esclareço o leitor que vivíamos numa casa da CP que estava implantada no interior de um triângulo “isósceles”. Com os dois lados iguais compostos pelas linhas dos comboios Porto/Viana e Porto/Braga, tinha como base, outra linha ”menos usada”, que interligava as duas primeiras, e se destinava a fazer a inversão do sentido de marcha das locomotivas. O nosso quintal das traseiras era tão perto dessa, que bastava esticar bem as pernas para colocar um pé no quintal e o outro em cima do carril.
Todos os funcionários da Estação de NINE conheciam bem “os Pimentas”, e por isso mesmo fora facilmente identificado. Desta vez fui denunciado por um maquinista que me reconheceu quando me estava a esconder, porque “uma vez mais” me viu a entalar a cabeça dos pregos nas emendas dos carris, para que os mesmos não caíssem quando os rodados do comboio passassem sobre eles, para os transformar em lâminas. Andávamos com a ideia de criar um clube de futebol, e era graças a isso “tal como mais um ou dois colegas” que ganhávamos uns cobres, na feitura e venda, de navalhas, facas e afins.



Impaciente, queria confirmar como é que aquela máquina ia dar som, sem electricidade, sem pilhas, sem nada, tal como garantia o autor.
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Para prestar mais atenção, já me doíam as orelhas de tanto apertar os auscultadores, mas o raio da geringonça insistia em não falar. A meu lado, o meu irmão não queria ajudar, e até já gozava comigo (Atenção senhores ouvintes, aqui transmite a Emissora Nacional etc etc). Zangado, jurei que se aquilo funciona-se, nunca o deixaria ouvir.


A paciência tem limites. Já "mais que uma vez" tinha revisto todo o esquema. O Cristal de Galena estava bem montado, as ligações estavam “nus conforme” rodava o condensador variável procurando as estações, mas em vão. O bicho continuava quedo e mudo. Como o meu irmão continuava no gozo, passei-me dos carretos, “Amandei-lhe” com o equipamento, e dei o fóra. Foi por um triz, que não lhe acertei.

Ao longe e zangado, quando já tinha percorrido largas dezenas de metros, ouvi o meu irmão a chamar-me, transfigurado. Gesticulando, com os auscultadores na cabeça, jurava que estava a ouvir perfeitamente. Bastante diferente do meu irmão António (já falecido), que era o mais velho, que tinha sempre razão, sabichão, e inventor, “do qual falarei numa próxima”, Este mais novo, era e é um brincalhão por natureza. Pensando que continuava no gozo, obriguei-o a jurar e a muito custo acreditei. Afinal era verdade. Graças a  um mau contacto, aquele malandro acabou por ser o primeiro a ouvir a Emissão Radiofónica do momento, o “Teatro TIDE”. Foi "que me lembre" a 1ª rádio-novela a existir, e "segundo constava" todas as Sopeirinhas adoravam  ouvir.

Certo dia, trovejava e chovia a cântaros, quando a electricidade de repente, se foi.
Deu-se um apagão geral.


A minha Mãe (Luiza) apreensiva, “pois nunca gostou de trovoadas” ficava sentada a um canto da cozinha, rezando uma oração, para que a Santa Bárbara terminasse com a tempestade. Contra a minha vontade e a do meu Pai (Amândio), “que sabia quem era o Benjamin Franklin”, uma vez mais nos aconselhava a colocar um objecto de aço “normalmente era uma foice” por cima dos barris do vinho “para não azedar” e não satisfeita com isso, ainda cobria a máquina de costura com um cobertor. Oriunda do Alentejo “onde além dos chaparros, não existiam pára-raios”, era segundo parece, uma técnica infalível.

Poucos minutos depois, recordo a invasão dos meus Amigos que sabendo que a minha galena trabalhava mesmo sem electricidade, queriam continuar a ouvir a voz do inconfundível Artur Agostinho que na altura relatava um jogo de futebol do Fê Quê Pê, que estava a dar uma cabazada ao seu antagonista que não recordo qual. Mas como éramos todos Portistas e dada a alegria reinante, desconfio agora, que seriam aos mouros.

Esclareço os meus amigos, que de electricidade pouco mais sei, do que: a Elecricidade é uma coisa que não se vê, mas sente-se.

Continua...


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