quarta-feira, 24 de julho de 2013

ADIDO... e mal pago.



Se te queres sentir feliz, visita a urgência de um hospital.

Após cerca de quatro meses do meu acidente, fui evacuado  num Dakota para Luanda.
Melhor dizendo:

Fui transferido de avião do hospital militar do Luso, para o hospital militar de Luanda.
A minha chegada a Luanda a bordo do Dakota

Destacado do meu grupo, fiquei agora a pertencer ao D.A.A.
(Depósito de Adidos de Angola).

Como conto na história (Tenho um parafuso a menos? Desculpa! Tenho é 2 a mais)
consegui sair deste quartel para morar na cidade. Deslocava-me todos os dias, quase sempre de Machimbombo "o Pré mal dava para os alfinetes", para fazer a fisioterapia no
Centro de Medicina física e Reabilitação de Luanda.


Um imponente edifício, na altura recente e necessário, infelizmente bastante frequentado

Todos os dias, amaldiçoava a minha sorte.
Vim a saber que o meu braço, além dos parafusos, tinha também um músculo cortado. Estava difícil recuperar os movimentos, porque esteve engessado tanto tempo.

Depois de sair da sala da fisioterapia onde sofria um pouco, verificava que afinal Eu não tinha nada, a comparar com a “carrada” de camaradas mil vezes pior.

...   +++   ...

Eu era dos primeiros a ser atendido por ser da consulta externa. Ao sair, cruzava-me quase sempre com a chegada dos “doentes” oriundos do Hospital Militar.
Só vendo, pois ninguém acredita.

Chegavam em camiões, que de marcha atrás encostavam às rampas de cimento, e de imediato começavam a sair em quantidades impensáveis aqueles que podiam andar a pé, para logo após, saírem dezenas e dezenas em cadeiras de rodas.
Eram estropiados dos mais diversos, que ao vê-los me faziam pensar como afinal Eu era um sortudo.




Comparando o Quartel D.A.A. a um navio, poderíamos dizer que a tripulação era quase sempre a mesma e reduzida.
Enquanto que os passageiros eram às largas centenas e estavam de passagem.
A maior parte eram Operacionais dos mais diversos, oriundos de toda a Angola.

Pacientes sem paciência, que como Eu, não eram considerados casos graves de internamento. Por isso mesmo, iam e vinham todos os dias ao “tratamento e consultas”, permanecendo nestas instalações até terem alta hospitalar, e de novo rumarem aos seus quartéis quase todos no mato.

Diga-se que não era muito mau, pois se o destino fosse a metrópole para o Hospital Militar na Estrela, era sinal que a coisa estava preta.

Da oftalmologia, ortopedia, reumatologia etc etc  eram mais que muitos, mas: com problemas psiquiátricos; passados dos carretos, cacimbados e afins, eram muito mais.
Às vezes metia-me dó,  ver na parada um desgraçado a colocar na marca do penalty uma bola imaginaria, dar um chuto e correr para a baliza.
Quase sempre estirava-se ao comprido para a defender “e pelos vistos com sucesso” pois bastava ouvir as suas palmas, ou o sorriso na cara. A cena era diária, repetia-se vezes sem conta, e terminava quando estava extenuado.
Vivia num mundo àparte, sem dizer coisa com coisa, e raramente falava com os colegas.

Certa vez sentado no BAR, tive a curiosidade de ouvir a conversa de mais dois clientes da psiquiatria.
Era uma conversa acesa de um Sargento e um Furriel que já tinham alguns meses de estadia neste quartel.

Mais calmos, o Furriel agora muito atento, ouvia de novo o Sargento e a confessar que tinha saudades da esposa, e muito medo de andar de avião.
Por isso, tinha sido Ela que ia viajar pois comprou o bilhete na metrópole e devia estar a chegar por estes dias a Luanda.

Ao ouvir isto, o Furriel disse:
Meu Sargento, isso só quer dizer que a sua mulher tem cá uns colhões... 
Foi o suficiente para o caldo ficar entornado.

Oiçalá ó seu imbecil...está a insinuar que a minha mulher é um travesti?

Ainda se agarraram. Interferi, ficando esclarecido que foi graças a mim que Ele não esbofeteava o Furriel. Questionou-o depois, quanto à diferença do posto hierárquico.

Como fui um gajo porreiro, também não participava dele por abusar de um superior. Convidou-me ainda, a ser testemunha no caso de ser necessário.

Escusado será dizer que, me prontifiquei de imediato.

Dizem que: nunca se deve contrariar um maluco.

Um dia após o tratamento, e quando percorria os corredores do Centro de Reabilitação para vir embora, reparei na abertura de uma das cortinas que delimitavam os
“gabinetes individuais".
Por não estar totalmente fechada, consegui ver que um Furriel enfermeiro estava a atender um soldado africano que Eu já conhecia, que “além de outras mazelas”, tinha perdido uma perna ao calcar uma mina.


O infeliz, nesse momento de pé, segurava-se agarrado a duas barras presas ao tecto.

O enfermeiro apertava as cintas de cabedal que iam prender "pela primeira vez" a prótese ao pequeno toco da coxa. Ao ver tudo isto, pensei na tristeza que este militar sentia por ter ficado deficiente para o resto da vida.
Entretanto ouviu-se um ding-dong nos altifalantes e alguém chamou com urgência, o Furriel.

Saiu de imediato deixando o “trabalho” a meio, recomendou-lhe que não podia largar os varões pois não ia demorar.

Depois, assisti e algo que ainda hoje me arrepio ao lembrar.
Incapacitado de andar há meses, o soldado com a perna artificial meia presa, lentamente abriu as mãos e sozinho de braços no ar, deu “a muito custo” um pequenino passo.
Sem saber que estava a ser observado, reparei na “enorme” felicidade estampada no seu rosto, "pois já podia andar".

Esse instante ficou-me gravado na memória.
Recordo que este soldado estava adido ao D.A.A. onde também Eu fazia parte.

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A partir daí, cada vez que passava por ele, e o visse sentado na cama com a perna desapertada a seu lado, escusado será dizer que, “para bem dele”, obrigava-o a colocar a prótese,
e á minha frente caminhar um pouco.


Desculpava-se, dizendo que lhe fazia doer muito. Confessou-me até que queria desistir,
pois era muito mais fácil andar de muletas.

Por Eu andar “infelizmente” metido nestes meios, sabia que era difícil calejar os membros para aguentar a pressão exercida pelas próteses. Mesmo assim “para seu bem”,
tinha de se resignar e fazer um esforço.

Quando me via ao longe corria de muletas ou ao pé-coxinho para o quarto, para colocar a dita.

Uns tempos depois já não a largava, e reconhecido agradecia os meus conselhos.


 

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