quinta-feira, 19 de junho de 2014

Três em Um



Logo no início e já fartos do Grafanil (onde permanecemos bastante tempo), para não estarmos diariamente sujeitos a cumprir as formalidades de entrada e saída do complexo militar, decidimos reivindicar um pouco mais de liberdade.

Para isso, os furriéis, Pimenta, Campos, Brito, Alegre, Tacão e mais alguém que não recordo, juntaram-se e alugaram dois quartos na casa de uma velha senhora.
“Velha!...talvez com a nossa idade de agora”.
Situava-se muito perto da Praça dos Combatentes, conhecida também pela praça da Maria da Fonte. Maria que entretanto foi apeada do seu pedestal (como podem ver nas fotos abaixo, onde a foto de 1970, fui Eu que tirei)
















Alçado posterior da Maria da Fonte (foto tirada a partir do prédio da CUCA)

“Uma sequência” em nome da evolução
agora: sem vestígios do Pedestal, da Maria,  nem tão pouco, da Fonte


Além de nós e da ”velha”, existia na casa mais um residente. Nada mais que um “slave” com o estatuto de criado. Sem cómodo para dormir, este dormia num simples colchão, que todas a noites colocava no chão a um canto da cozinha.

Rara era a noite, em que os camaradas Tacão e Campos “antes de dormir”, não bebessem um leitinho fresco. Atenciosos, estes “copinhos de leite” para não acordarem o preto, evitavam quase sempre, acender a luz quando se deslocavam ao frigorífico.
E certa vez, o imprevisto aconteceu.
O black, alterou um pouco a configuração do “quarto”. Resultado: ouvimos um estrondo. Tinha sido a dupla que na escuridão tropeçou, e além de caírem em cima do homem, entornaram também o leite fresquinho no dito cujo, que ia morrendo do susto e gelado, tudo porque daquela vez, tinha montado o colchão um pouco mais ao lado.

Tínhamos (aquilo que hoje se diz...3 em 1), cama, mesa e roupa lavada. A Senhora, além da roupa e dos quartos que nos alugava, fornecia-nos também, almoço e jantar. Para amealhar mais uns poucos Angolares, fornecia ainda duas vezes por semana, a comida a um casal amigo numa espécie de "Takeaway”. Era o que se chamava “serviço completo”.

Por isso mesmo, duas vezes por semana, tínhamos o prazer da visita de duas simpáticas moçoilas, filhas desse casal amigo, que vinham buscar a comida. À medida que o tempo passava, reparei que a irmã mais velha “a Manuela”, queria meter conversa comigo. Parecia pois, que a minha pessoa não lhe era indiferente.
De tanto pedir à Velhota para que não me servisse a refeição pois queria ser Ela a fazê-lo, esse dia chegou.

Com todo o mundo sentado à mesa, reparei que enquanto a mais nova "Tucha" sorria”, a mais velha  “Néla” dirigia-se com a terrina "cheia de sopa" na minha direcção.
Quando chegou ao meu lado, inclinei-me um pouco. A seguir, "com a terrina ainda no ar" segurou-a com uma só mão e quis com a outra, agarrar a concha para me servir.
Num ápice, a asa que segurava partiu-se, e todo Eu estava coberto de couves, feijões e não só.
Não sabia se rir se chorar.
Atrapalhada, a Néla corria envergonhada para a cozinha enquanto que os meus camaradas riam, principalmente o “algarvéu marafado” Furriel Brito, que gargalhava até não poder mais.

Posso agora dizer “quanto a mulheres”, que um dia, fiquei escaldado.

Tive pena da cachopa, que de tão gentil quis ser, quase acabou por estragar a “conquista” que ia paulatinamente fazendo. Graças a esse episódio, tive necessidade de saber a sua morada, para a ir esperar e dizer-lhe “Estás perdoada”. Deu assim azo, a que uns dias mais tarde, já nos podiam encontrar juntinhos, sentados num banco de jardim na encosta do Cinema Miramar*, olhando “enlevados” a maravilhosa paisagem da Ilha de Luanda.
 
A partir da Ilha, o cinema Miramar ao cimo da encosta, um rectângulo ao fundo, por detrás do mastro da proa do barco


- Enquanto que a minha “futura sogra”, às vezes me pedia, que usasse a minha influência “como militar” para convencer a polícia a deixa-la visitar os barcos que atracavam no cais de Luanda.
 (Explicou-me e confirmei, que tudo o que havia de bom e moderno, se encontrava a bordo dos navios recém chegados. Era costume tanto ela como as amigas, saírem dos paquetes, com um aspecto bastante diferente do da entrada. Tanto no que diz respeito às roupas, como unhas, penteados, e não só. E um dia, aproveitei também a ida, para comprar aquela que “além da G3” viria a ser, a minha companheira de guerra. Nada mais que a minha máquina fotográfica YASHICA, que hoje “qual relíquia” se encontra exposta no “museu do BAIXATOLA’s BAR” em Vila Nova de Famalicão, ao lado de um Flash que foi do furriel Brito, resultado de uma troca por um Canhangulo (nome também dado a uma caneca “das grandes” de cerveja) porque o Brito já não se conseguia entender com a reparação do dito. Avariado, embrulhou-o no próprio jornal onde o tinha desmontado, e em desesperado, fez-me essa proposta, que aceitei. Depois de o reparar, fartei-me de flaxar, e só por velhice, é que repousa hoje no meu museu).
- O meu “futuro sogro”, pedia-me (por ser Mais barato) para lhe comprar garrafas de whiskey no Casão Militar. Um dia deixou esgotar o stock, e porque era domingo e o Casão estava fechado, acabei por lhe oferecer uma VAT 69. Não se fez rogado, dizendo que também servia, pois bastava trasfegá-la para uma garrafa vazia de marca melhor.

Em casa dela, estávamos “sossegadinhos” namorando, quando à tardinha, ouvimos alguém na sala ao lado (onde se jogava) perguntar: ó Sr. José, então? Não há um whiskyzinho que se beba?

Quase de imediato ouvimos alguém a pé, que pedindo licença, nos interrompeu. Era o “sogro” que abrindo um armário, agarrou numa garrafa, e saiu tão rápido como entrou.
Poucos depois, ouvimos alguém a “estalar a língua” dizendo: isto sim, isto é que é um Ballantines. Rimo-nos e pensei: Percebes tanto de whiskey, como eu de lagares de azeite.

Voltando à minha Amiga Nela, quero referir que sempre lhe esclareci a minha situação, e mais tarde ao partir definitivamente de Luanda para o mato, não ficou surpreendida quando a convidei e "aceitou", a  ser a minha MADRINHA DE GUERRA.


(*) - Recordo a nossa 1ª ida ao cinema Miramar. Já sabia que existiam cinemas ao ar livre “o do Grafanil, era um deles”, mas nunca tinha entrado em nenhum. Quando um pouco antes do intervalo, me levantei para “fugir” à chuva que começava a cair, a Néla impediu-me de o fazer, e “para meu espanto”, verifiquei que todos se mantinham sentados. A chuva não foi muita, e quando o intervalo aconteceu, Ri . Com as luzes acesas, achei graça ao ver o “fumo” da roupa a secar, que o pessoal emanava. …Não estava habituado.
(um dos poucos cinemas, que tinham no seu interior, a rara  flor Welwitchia Mirabilis)

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