sexta-feira, 27 de abril de 2012

Simplesmente: a Verdade


Era um bom companheiro. Paz á sua alma.

Até hoje, quando se falava de "um certo Furriel", vinha-me logo à ideia o cacimbo e a história da escova de sapatos puxada pela trela, qual maluquinho de arroios.

Sabemos agora com exactidão, como tudo se passou, e posso afirmar que qualquer semelhança com a realidade, tem alguma coincidência.

Certa vez, apareceu no acampamento da 2506, um cãozinho engraçado rasteirinho e muito felpudo “quase não se lhe viam os olhos”. Era um animal sem pedigree, porém inteligente, que rapidamente descobriu quem era o Chefe. Feliz, seguia-o para todo o lado mas impedido de entrar, dormia num tapete fóra da tenda.
Era o xodó da companhia, até que um dia apareceu deprimido, com um aspecto doentio. A vitalidade outrora exibida, de repente desvanecera. Acabaram-se os cólinhos, os mimos, e as risadas das suas travessuras, porque a doença podia ser perigosa. Será Esgana? Raiva? Pior ainda?.  Iniciou-se então, uma luta contra o tempo no intuito de fazê-lo espevitar de novo, mas… debalde.

O dia estava abrasador, talvez perto dos 50º. O animal até parecia que estava armado em alentejano, a arranjar lenha para se queimar. Lânguido, e já sem forças para beber, não reagia aos estímulos. Chegou-se “por unanimidade” a uma triste conclusão: ERA UM CASO PERDIDO.

Para aliviar o sofrimento, sabemos agora, que o Furriel Atirador foi incumbido pela chefia, para uma ingrata missão secreta. Tinha de a cumprir até á hora do almoço, e sem hipóteses de recusa. Essa missão era nem mais nem menos, “Assassinar a sangue frio” com um tiro certeiro na mona, o fiel amigo “não confundas com bacalhau”. Para isso, podia sair tranquilo do aquartelamento sem receio, porque a sentinela seria avisada para não reagir, ao soar um tiro.

O dito furriel com receio, não podendo esquivar-se da missão, "por serem curtos" reuniu dois bocados de corda. Pediu depois à chefia, autorização para utilizar em vez da G3, um pequeno revólver que possuía. Autorização concedida.

Com todo o cuidado para não ser mordido, atou a corda à volta do pescoço do animal e incitou a segui-lo. Sem obter resposta, resolveu sem mais delongas rebocar o bicho pela trela. Saiu do aquartelamento, e percorreu a recta de 200 metros, com o animal quase de rôjo levantando poeira. A meio do caminho, apreensivo, olhou para trás e reparou nos olhares incrédulos de alguns soldados, que atónitos assistiam á cena.
Finalmente chegou a curva, um sítio ideal para cumprir sem testemunhas, a execução imposta. Olhou-o de frente, pediu desculpas, encostou-lhe o pequeno revolver à testa, virou a cara e pum. O pobre cãozinho até recuou, talvez 40 centímetros. Uff... Missão cumprida; descansa em paz.


Iniciou o regresso, pensando como iam reagir os soldados ao vê-lo chegar só, de pistola à cinta e G3 ao ombro. Três passos dados, com remorsos olhou para trás. ??!!. e estremeceu! Estarei Cacimbado?

Não queria acreditar no que via; o pobre bicho estava a pôr-se de pé. Aleluia, o malvado ressuscitou. Não sabia se rir se chorar.
Reflectiu melhor e, grande chatice. Tinha de viver tudo de novo. Levantou a franjinha da testa do animal e confirmou a existência do tiro. Tinha só um furinho, o da frente. Se a bala não saiu, pelo menos entrou.

Respeitosamente falou com ele: Perdoa amigo, mas tenho de repetir a dose. Novo ritual e novo tiro. Não tanto, mas uma vez mais o bicho recuou. Será que foi desta? Aguardou um pouco, e afinal o canídeo insistia em não morrer. É mesmo um cão de guerra, pensou. Mas….
É pá…Deves estar a gozar comigo!.. Armado em Rambo, largou a pistola, agarrou na G3 e deu-lhe o golpe fatal. THE END.

Era um bom companheiro. Paz á sua alma.

Sem comentários:

Enviar um comentário