sábado, 28 de abril de 2012

RÁDIO «POP»


Ainda na metrópole, com elementos da minha Companhia formamos um conjunto musical “Conjunto POP”, cujo Baptismo de Guerra (ouvir a banda sonora do filme Alguns dos meus Slides) foi na presença de quase 2000 homens, (desde Soldados, a altas patentes do Exército e Marinha), em pleno alto-mar a bordo do Paquete UÍGE, e segundo a crítica, foi um êxito.
 








Tivemos mais algumas actuações em Luanda, mas acabou por ser extinto devido à separação dos elementos. Todos os instrumentos tinham dono, menos o amplificador/câmara de eco, que “além de outros” foi oferta do Movimento Nacional Feminino. Com uma cabeça de gravação e cinco de reprodução, (gastei nela, várias dezenas de metros de fita do meu gravador de bobinas) era agora ligado a um gira-discos, e utilizado para diversas brincadeiras.
Apertando o nariz, (ao soar o trim trim de um telefone magnético que o Giga "comprou" quando passou por uma Missão abandonada) simulávamos vozes de menina, num programa de discos pedidos.


Alô, é do programa Quando o telefone toca? Quero pedir um disco, sou a namorada do furriel “x” e quero dedicar-lhe um disco, etc. etc.

Numa dessas brincadeiras surgiu-nos a ideia de formar um posto de rádio. O Vítor das transmissões arranjou um AN/GRC-9. Eu na técnica, fiz as ligações dos equipamentos, (gravador, gira-discos, amplificador, etc.), e o Machado vagomestre, na locução. O Carvalho mecânico trouxe o jipe, e com um pequeno rádio, pela calada, fomos dar uma volta ao musseque para ver o alcance da emissão. Estava tudo a 100%, demos conhecimento da boa nova aos moradores, e regressamos.


                                                  
Ao entrarmos no quartel, fomos surpreendidos pelo Comandante. Agarrou no nosso pequeno rádio de bolso, que levamos para controle da emissão, e de imediato escutou: Aqui Rádio POPPOP POP. Era a voz do Machado e a câmara de eco do amplificador. Estamos fritos…pensamos nós.


 Dia Inauguraçao oficial                                                                                                             Estúdio de som
Obrigou-nos a seguir atrás, e para nosso espanto, ao surpreender o locutor que sentado na minha cama falava em sussurro, em vez de nos dar a temida “porrada”, desta vez aceitou a nossa sugestão. A de criar uma estação emissora, já que era impossível ouvir a estação de rádio mais próxima, a Rádio Luso, nos pequenos transístores de bolso. Recordo então que para isso, tínhamos a obrigação, de em cada dois discos reproduzidos, ler aos microfones uma frase de acção psicológica. Aceitamos, e assim nasceu a Rádio POP.

        


Quartéis, musseques, estabelecimentos etc. à nossa volta, possuíam as duas folhas A4 dactilografadas onde constava toda a nossa discografia. Os Dicanzas do Prenda com o Brinca n’areia, a Erótica, o “Je t'aime moi non plus” bem como o Tango dos Barbudos (para nós já com barbas, mas novidade na cidade do Luso) rodavam vezes sem fim.
Para preenchermos a programação diária “dado a quantidade de discos ser escassa”, usávamos a imaginação. Recordo os tão famosos (e adorados pela população) concursos levados a cabo. Oferecíamos desde Gilettes da barba, sabonetes, sandálias de plástico, cuecas e sutiãs, livros e outros, aos primeiros/as ouvintes a chegar depois de dado o sinal, bem como àqueles ou àquelas que entrassem no aquartelamento segurando na boca uma colher com um ovo dentro, etc. etc. Levavam o prémio mas ovos, galinhas e outros, ficavam do lado de cá, ou seja, não eram devolvidos.

Certa vez, estava meditando, quando acordei com o barulho feito pelo Giga que de “cupróar” procurava debaixo da minha cama o meu cágado. Era um cágado lindo, “o meu Wolksvagem” a quem pintei os vidros e portas e quando olhado por baixo, também tinha desenhado, o cárter, diferencial e tudo. Com um arame à volta e uma argola no cimo, dava para o passear quando a nostalgia atacava.
É pá, desiste porque assim não vale. O concurso é só para os civis e tu és militar.
Quando este concurso terminou, eram tantos os cágados que tivemos de “obrigar” os proprietários a levá-los de volta.    
                                                                         

                                           

1 comentário:

  1. Transcrevo o telefonema de um leitor atento:

    É pá, estás enganado!
    Não é Bicanzas do prenda, mas sim: Dicanzas do prenda. Tenho aqui o disco...

    Obrigado Vitor Santos e como reparas, está feita a correcção.

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