sábado, 28 de abril de 2012

Na foto: o extremo direito


Fui “convidado” para dar um curso de minas e armadilhas no AGRUPAMENTO DE ENGENHARIA DE ANGOLA

Os meus alunos eram quase todos, os chamados “brancos de 2ª”. Com muitos meses guerra, já tinham visto de perto algum material explosivo, só não o tinham manuseado. Era uma vantagem, pois não foi difícil incutir-lhes o quão perigoso era o Curso. Ficou combinado desde logo que durante a semana, seriam somente dadas as aulas teóricas. As práticas seriam ao fim da semana. Podiam ver, tocar, bater e até morder o trótil. Com o explosivo plástico 808, permiti que dessem largas á imaginação. Moldavam-no com as mãos, dando-lhe as formas que quisessem (e que formas). O 808, para cortar carril, era só visto. Uma “cobra” feita esfregando as mãos, contornar, ignição, e: já tá.

É expressamente PROIBIDO QUALQUER EXPLOSÃO, nem mesmo das bombinhas de carnaval. Quase todos os explosivos militares, não podem ouvir uma explosão por perto, porque rebentam por “simpatia”. Alguém sugeriu que durante o curso, devia ser proibido, comer feijoada (essa não entendi). Com este pessoal, pudemos dar largas á imaginação na componente das Armadilhas. Descobri neles um apurado “requinte de malvadez”. Todos (pelos vistos, menos um) concordaram em cumprir a ordem: Não é permitido “roubar” material.

Certo dia, estranhei ao ser abordado pela Polícia Militar, e me pediram para confirmar se Eu era um Furriel das Minas. Certo…e Porquê?

Suba e venha connosco. Temos um problema ali num Café, com um soldado bêbado. Quando cheguei estava todo o mundo fóra do estabelecimento, pois tinha sido evacuado.

...O militar, estava a jogar. Para chegar à bola lá ao fundo, debruçou-se todo sobre o bilhar, e depois falou bem alto: Fo..-se, não fui pelos ares porque não calhou. Na frente dos clientes, começou a tirar do bolsinho das calças para cima do bilhar, um, dois, três…Sete detonadores pirotécnicos amolgados. Todo o mundo fugiu para a rua, menos o soldado que foi detido por alguns populares.
O que fazer? Se não rebentaram ao serem assim tão maltratados, não seria agora. Pedi um jornal, e deram-me uma dúzia deles. Não demorei muito, e entre aplausos e vivas, saí do café com sete bolas de papel, levemente amachucado. A PM não sei, mas Eu no dia seguinte, dei um raspanete ao inconsciente.
Esse material didáctico, foi “derretido” como sempre na aula prática, do fim-de-semana. Era poupadinho mas, não podia terminar o curso com stock. No último dia, levamos connosco tudo o que restava e fomos para um local isolado como de costume.
Entre dezenas de materiais, havia um grande rolo de cordão lento (pirotécnico) que ninguém quis. Assim, e no meio de um rolo do cordão detonante, metemos tudo o que restava. TNT, minas e granadas "de diversos tipos", torpedos bengalórios, detonadores etc., e no exterior o tal cordão lento com o respectivo detonador. Acendi o rastilho e para não estarmos de plantão, (a coisa era demorada), e por ser muito perto, fomos todos para a praia jogar à bola. Com o entusiasmo e já esquecidos, não ganhamos para o susto ao ouvir tremenda explosão.
Foi um estrondo enorme, parecia até que os deuses se tinham zangado. Confesso que ainda hoje me arrependo, não ter ido ao local confirmar se tudo tinha desaparecido, mas… Achamos todos que sim.













os MEUS ALUNOS...cá o Eu, o ponta direita (de mãos na ilharga)


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